Que o céu nos poupe de tempos interessantes
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de maio de 1999
Por MICHAEL ELLIOTT 
Washington, 17 (AE-NEWSWEEK) - A guerra em Kosovo complicou as relações de Washington com Moscou e Pequim. Estaríamos no limiar de uma nova era de rivalidade entre superpotências?
"Foi uma semana bem maçante", disse um assessor de alto escalão da Casa Branca na quinta-feira. O comentário faz a gente perguntar: O que é preciso para despertar esses cavalheiros?
Foi uma semana em que manifestantes chineses transformaram o embaixador americano em prisioneiro em sua residência. Foi uma semana em que o impopular presidente da Rússia exonerou seu primeiro-ministro e por pouco não sofreu impeachment. Foi uma semana em que o secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, o mais respeitado membro do governo Bill Clinton, anunciou sua renúncia. E foi uma semana em que iniciativas diplomáticas para solucionar a crise de Kosovo pareceram paralisadas e os sérvios afirmaram que bombas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mais uma vez mataram muitos kosovares. Se foi uma semana maçante, que o céu nos poupe de tempos interessantes.
De repente, o mundo parece de novo um lugar turbulento e perigoso.
Enquanto travam uma guerra na qual pouca coisa até agora deu certo, os Estados Unidos têm pela frente a perspectiva de uma rivalidade com a China e a Rússia. A população parece pressentir o risco; na última pesquisa de opinião feita pela Newsweek, 39% dos que responderam disseram que o mundo está mais perigoso do que durante a guerra fria, ao passo que 18% disseram achar que ele está mais seguro.
No momento em que a popularidade de Clinton está caindo e o amargo legado do processo de impeachment deixou-o sem apoio bipartidário em Washington, os tempos pedem que os EUA tenham liderança convincente e constante. Faltando 18 meses para Clinton completar a moldagem de seu legado, estamos prestes a descobrir do que o presidente é feito.
O desafio estratégico que o governo americano tem pela frente é lidar com o que os institutos de pesquisa e assessoramento logo estarão chamando de E2CW - o fim do fim da guerra fria. Durante uma década, o equilíbrio geopolítico do mundo foi moldado pela vitória do Ocidente sobre a União Soviética. O fato predominante das relações internacionais desde 1989 tem sido a dimensão do poderio americano.
Claro que têm havido momentos em que o governo Clinton não sabe o que pretende fazer com seu poder - na Somália, Haiti, Ruanda, Bósnia, Kosovo. E, mesmo quando o próprio Clinton não foi desviado por questões como o impeachment, suas equipes de segurança nacional, no primeiro e no segundo mandato, dificilmente inspiraram confiança.
Durante certo tempo foi até possível argumentar que tudo isso não importava, pois os maiores cargos do governo eram ocupados por homens melhores. O colapso do comunismo soviético removeu o fator aglutinante que desde 1945 unia os vários ramos da política americana. Ainda em 7 de abril, Clinton declarou: "Todos nós sabemos que este é um momento extraordinário, pois não existe uma séria ameaça à nossa segurança..." Isto foi antes. Pois no mundo E2CW a Rússia começa a preparar-se para a eleição presidencial do próximo ano num estado de falência política.
Em 12 de maio, o presidente Boris Yeltsin exonerou seu primeiro- ministro Yevgeny Primakov e nomeou para o cargo um amigo tenaz, o ministro do Interior, Sergei Stepashin. Se a Duma (a Câmara baixa do Parlamento) o confirmar no cargo, Stepashin será o quarto chefe de governo russo em 14 meses. O próprio Yeltsin, em seus momentos de maior lucidez, pode parecer para o Ocidente o melhor num bando de gente ruim, pois tem vagamente a consciência de que uma nova guerra fria seria desastrosa para a economia russa já em ruínas.
E existe a China. O bombardeio desfechado pela Otan à sua embaixada em Belgrado provocou uma autêntica onda de ira. Os manifestantes acrescentaram um toque de azedume às relações sino- americanas que já não iam bem. Washington treme ante as alegações de que os chineses furtaram segredos nucleares dos EUA e tentaram comprar eleições americanas. No mês passado, durante a visita do primeiro-ministro Zhu Rongji aos EUA, Clinton se negou a reconhecer que as concessões dos chineses bastavam para garantir o ingresso antecipado da China na Organização Mundial de Comércio (OMC).
É certo que na semana passada Clinton telefonou ao presidente chinês, Jiang Zemin, apresentando condolências pelo bombardeio em Belgrado, e as conversações sobre a filiação à OMC não foram interrompidas. Mas alguns analistas em Pequim receiam que os acontecimentos do último mês tenham endurecido os conservadores chineses, que gostariam de pôr na geladeira as relações com Washington.
Também existe Kosovo. Para conseguir uma solução, os EUA precisam da Rússia e da China (que, com os EUA, a França e a Inglaterra, têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU). Portanto foi má idéia bombardear a embaixada chinesa.
A solução para a mixórdia que é Kosovo exige alguém da estatura de um Truman ou Nixon - presidente sempre disposto a expor a risco seu capital político interno a serviço de imperativos de política exterior.
Clinton é esse homem? E se ele convencer os chineses a aceitar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para usar a força militar em Kosovo, estaria finalmente disposto a despachar tropas terrestres para vencer a guerra?
A Newsweek apurou que já avisaram a Clinton: Ele não vencerá sem as tropas. Poucas semanas atrás, o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas enviou uma carta ao secretário de Defesa, William Cohen, informando que só tropas terrestres garantiriam a concretização dos objetivos políticos do governo americano. E cresce nas forças armadas do EUA a opinião de que o tempo está-se esgotando. Fontes do Pentágono (Departamento de Defesa) calculam que 600 mil pessoas estão vivendo ao relento em Kosovo e outras 200 mil, em abrigos, mas fora de seus lares.
É preciso ajudar esses kosovares antes que cheguem as neves do inverno; e bombas não bastarão para cumprir a missão. Uma guerra terrestre precisa começar em princípios de agosto, e as forças exigidas precisam reunir-se a partir de princípios de junho.
Portanto, Clinton não pode protelar muito mais a tomada dessa decisão crucial. Ninguém em sã consciência duvida que o presidente esteja profundamente empenhado na busca de políticas para solucionar divisionismos étnicos. Tendo sido criado no Sul dos EUA, Clinton viu o que acontece quando o ódio envenena as relações das comunidades. Seus instintos humanitários são autênticos. Mas ainda não está claro se ele tirou a conclusão óbvia de Kosovo: Não se pode acabar com o ultraje a uma etnia a 4.500 metros de altura.
A atitude de Clinton, que até agora não admitiu essa verdade, leva a sérias apreensões na Europa. Na semana passada, comentaristas europeus, muitos dos quais partidários ideológicos de Clinton, despejaram críticas virulentas. Hugo Young, de The Guardian, de Londres, escreveu: "Bill Clinton não quer liderar... Creio que estamos assistindo à lenta desintegração da firmeza de propósitos dos EUA." François Heisbourg, presidente do Centro para Política de Segurança, de Genebra, disse: "Ele não está levando a guerra a sério; é alguém que se esquivou do recrutamento militar." E o jornal Berliner Zeitung opinou: "A chance de Clinton entrar para a história como pensador estratégico está desaparecendo."


