Bauru, SP, 15 (AE) - O delegado João Osinski Júnior, do 1º Distrito Policial de Bauru, a 335 quilômetros de São Paulo, indiciou hoje por nove crimes os quatro líderes do acampamento dos sem-terra que queimaram casas e pastagens e abateram bois na fazenda Fazenda Val de Palmas. Os sem-terra foram despejados ontem (14). Manoel da Silva, Odair Lopes de Oliveira, Carlos José dos Santos e João Virgínio dos Santos vão responder por esbulho possessório, ameaça, desobediência, danos, furto, roubo, cárcere privado, incitação ao crime e formação de quadrilha.
Hoje pela manhã o delegado foi à fazenda acompanhado pela polícia técnica e constatou que os invasores queimaram nove casas, uma serraria, um galpão, uma mangueira de gado e abateram aproximadamente cem bovinos. Também depredaram a casa-sede, um casarão histórico, que estava em restauração para ser transformado em museu.
"O grupo promoveu grandes estragos e isso não pode ficar impune, pois atenta até contra o estado democrático", disse o delegado, justificando os indiciamentos. Inquérito, aberto no início da semana apura o abate dos bovinos e furto da carne na fazenda. Sete pessoas estão presas. Os quatro líderes foram incluídos neste inquérito. As investigações e outros envolvidos poderão ser identificados e também indiciados.
Destruição- Osinski conta que, ao chegar na fazenda, além dos danos materiais, encontrou perto da sede mais de 20 carcaças de bois abatidos e ouviu relatos estarrecedores dos empregados. Eles confirmaram terem sido impedidos de sair da propriedade durante a invasão.
Selma Nassrala Kassis, uma das proprietárias, disse que a casa de seus pais, onde toda a família foi criada, está semidestruída. "Eles quebraram parte dos móveis para utilizar os tampos como apoio para cortar a carne dos bois que abateram e ainda levaram muitas peças. Também destruíram mais de 40 quadros
quebrando os vidros de alguns e cortando as gravuras daqueles que não tinham vidro.
Morosidade - Selma e seus irmãos atribuem parte do problema à morosidade da Polícia Militar. A fazenda foi invadida no dia 19, o juiz expediu a liminar de reintegração no dia 24 de junho, mas só no dia 14 de julho é que a ordem foi cumprida e, mesmo assim, segundo a fazendeira, com muitas limitações. Ela disse que, além dos prejuízos sofridos com a invasão, para a polícia cumprir a determinação judicial a família foi obrigada a contratar seis ônibus, 15 caminhões, uma pá-carregadeira e dez trabalhadores braçais. Também criticou o fato da polícia, mesmo presente à fazenda, não ter evitado que os acampados ateassem fogo às casas.
O comandante do 4º BPM/I, tenente coronel Antônio Sérgio Marsola, disse que uma operação de descupação como a feita na fazenda Val de Palmas - com 400 homens e 60 veículos - exige a mobilização de recursos da cidade e região e que, desde a expedição da ordem judicial, informou o Judiciário sobre o andamento das providências. "E o fogo na casa foi colocado quando a tropa chegava; eu poderia ter mandado avançar e isso poderia fazer vítimas pessoais, inclusive entre os próprios funcionários da fazenda e suas famílias. Por isso, preferi evitar o confronto e acho que a medida foi acertada."
Horto A saída da fazenda terminou por volta das 22 horas de ontem (14). Os sem-terraforam para o antigo Horto Florestal da Fepasa, de onde foram retirados há cerca de dois meses. Segundo os líderes, eles esperarão no local até que o Incra decida sobre a fazenda Santo Antonio, de Cabrália Paulista, onde também estiveram acampados.
Protesto - Os sem-terra que deixaram a fazenda Val de Palmas interditaram hoje, por 40 minutos, a rodovia SP-225 (ligação Bauru-Jaú), que passa ao lado do Horto , onde estão acampados. O protesto foi pela falta de água, já que ao negociarem a saída da fazenda, trataram com autoridades locais o fornecimento de água para o novo acampamento. A interrupção, iniciada por volta das 17 horas, provocou congestionamento. Os próprios sem-terra apagaram o fogo que haviam colocado em pneus e, em troca, ganharam a água do caminhão do corpo de bombeiros. A prefeitura de Bauru também mandou caminhões pipa para abastecer o grupo.

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