Quatro mil ficam sem ônibus após confronto entre GCM e perueiros; coletivos são apedrejados
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quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Gabriela Carelli 
São Paulo, 07 (AE) - Menos de 12 horas depois do grave confronto entre perueiros e a Guarda Civil Metropolitana ocorrido ontem no Grajaú, na zona sul, que resultou em 63 ônibus depredados e 4 incendiados, os moradores de São Paulo continuaram a sofrer as consequências da crise no transporte público. Quatro mil pessoas ficaram sem ônibus por causa do vandalismo, enquanto outras tiveram de presenciar novas cenas de barbárie. Um carro da Viação Paratodos foi queimado na Avenida Cupecê, às 9h40 de hoje, assustando passageiros, e outro, da Viação Transdaoto, foi apedrejado às 10h40 na Avenida 23 de Maio.
Além da repetição de atos de vandalismo, havia filas enormes nos pontos de ônibus e muito medo na hora de escolher a condução. Os passageiros, temerosos de que os incidentes no Grajaú se repetissem, não sabiam se aguardavam pelos ônibus ou se optavam pelas peruas. "Eles estão tirando o transporte da população e a gente é que paga", disse, desconsolada, Marivalda Fonseca, de 35 anos. Ela estava no ponto da Avenida Cupecê com seu filho, de 5 anos, quando um grupo de perueiros cercou o ônibus - da linha 6358 -, ordenou que todos descessem e ateou fogo.
O dono da Paratodos, Walace Siqueira, ficou revoltado com a destruição e com o que classificou de "mostras de guerrilha". "Falta autoridade". Na Avenida 23 de Maio, o ônibus da linha 5318 foi apedrejado. Ninguém ficou ferido. No Terminal Bandeira, às 14h40, houve protesto de motoristas e cobradores que estavam revoltados com a violência dos perueiros contra a categoria. A paralisação durou 15 minutos. Sem opção - No Grajaú, enquanto ônibus e peruas voltavam a circular, aparentemente em paz, pessoas aglomeradas nos pontos titubeavam. "O que vier primeiro, pego; mas tenho medo da perua", disse Maria Medeiros, que esperava um ônibus havia 40 minutos. Era exatamente a espera a justificativa apresentada pela maioria para o uso das vans. "Lotação sempre tem; ônibus não", disse Severina Gomes dos Santos, de 48 anos.
Se passageiros temiam novos conflitos, motoristas e cobradores mostravam-se apavorados. "Disseram que iriam nos matar", disse o condutor Cícero de Assis, de 50 anos. Falência - A falência do sistema de transporte público e a inoperância da Prefeitura são as causas, segundo especialistas, do conflito de ontem na zona sul e das novas investidas dos perueiros contra os ônibus registradas hoje. A dívida do Município com as empresas de ônibus é de R$ 176 milhões, o projeto de corredores de ônibus está parado há quatro anos por falta de verbas e nunca houve medidas oficiais para organizar os lotações que começaram a tomar a cidade há 12 anos, segundo a São Paulo Transporte S.A. (SPTrans). Hoje, a SPTrans estima em 15 mil o número de perueiros na cidade.
"Esse cenário é ruim e só tende a piorar", disse o professor de engenharia de transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) Cláudio Barbieri Cunha. "A situação dos perueiros é irreversível, pois o sistema faliu e não tem eficiência", disse. "Eles têm sido usados como forma de pressão política", disse o assessor da Comissão de Transportes da Câmara Municipal, José Borges de Carvalho Filho. Ele se refere ao projeto do Executivo, cuja votação foi iniciada hoje, que trata da regularização de 4,1 mil perueiros.
Para os opositores, o Executivo utiliza o projeto para conseguir o fim da municipalização do transporte, livrar-se dos subsídios e economizar R$ 30 milhões mensais. A reportagem procurou o secretário municipal dos Transportes Getúlio Hanashiro, mas não foi atendida.


