''Você está sofrendo, mas tem de parar um pouco e pensar também no sofrimento dos outros que estão à espera de um órgão para sobreviver'', diz a professora Maria do Socorro Alves, de 39 anos. Ela se deparou com essa situação em março do ano passado, depois que um de seus filhos morreu atropelado por um ônibus a caminho da locadora de DVD. O motorista estava embriagado e passou o farol vermelho. O garoto, de 12 anos, morreu no pronto-socorro do Hospital São Luiz, no Morumbi.
Maria decidiu doar todos os órgãos do filho. Quinze dias depois, recebeu uma carta dizendo que eles haviam beneficiado sete pessoas. ''Sempre tive vontade de ser doadora e sempre conversei sobre isso com minha família'', conta a professora. ''Não é fácil; a dor é muito grande. Mas se não tem mais jeito, por que não fazer com que outras pessoas sobrevivam? Acho que é uma maneira de ajudar outras famílias para que elas não tenham de passar pelo mesmo sofrimento que nós passamos.''
A publicitária Daniela Matteoni, de 34 anos, reza todos os dias pela família da menina de 14 anos que lhe doou o rim e o pâncreas. Diabética desde criança, ela perdeu a função renal aos 27 anos. Tomava três injeções de insulina por dia e chegou a ficar temporariamente cega. Passou seis meses sem andar e, há três anos e meio, dependia de uma máquina de hemodiálise para sobreviver. Depois do transplante, ficou totalmente curada. ''Eu nasci de novo; não há outra maneira de colocar isso'', conta.
Hoje Daniela trabalha como voluntária na Associação de Pacientes Transplantados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dando apoio a pacientes recém-transplantados e que estão na fila de órgãos. ''Quando você doa um órgão, é uma vida que você está dando. Não tem nem como agradecer.''(H.E./A.E.)





As principais dúvidas


Quem pode ser doador?
Qualquer pessoa. Não há restrição de idade.

Para ser doador é preciso que isso esteja registrado por escrito? Não. Quem deseja ser doador precisa apenas comunicar isso aos familiares. Só a família poderá autorizar a doação. O registro de doador na carteira de motorista não existe mais.

Em que situações é possível fazer uma doação?
A doação de órgãos vitais ocorre nos casos de paciente com morte cerebral, mas que permanece respirando e com o coração batendo. Outros tecidos, como ossos, pele e córneas, podem ser doados mesmo após parada cardiorrespiratória.

Como é atestada a morte cerebral (encefálica)?
Precisa ser comprovada por pelos menos dois médicos não ligados às equipes de transplante, incluindo um exame por imagem e com intervalo de seis horas entre os laudos.

O corpo fica desfigurado?
Não. A reconstrução do cadáver é obrigatória por lei.

A família pode saber quem recebeu os órgãos, ou vice-versa?
O sigilo não é exigido por lei, mas os médicos, como regra, evitam ao máximo qualquer contato entre doadores e transplantados.

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