Londrina - Em um bairro de Londrina, uma adolescente de 16 anos, deficiente intelectual, sofria abusos sexuais. Em outro, três crianças filhos de uma usuária de drogas ficavam sozinhas em casa, em meio à sujeira, restos de comida e precisavam tomar água da chuva, em uma bacia no fundo do quintal.
Foi somente com a denúncia da comunidade que o Conselho Tutelar ficou sabendo dos casos e pôde tomar providências. No caso da jovem abusada, por exemplo, o agressor foi preso e condenado a 28 anos. O presidente do Conselho Tutelar da Zona Norte, Alisson Fernando Moreira Poças, conta que em alguns casos a denúncia é fundamental para o trabalho dos conselheiros. Reportagem publicada na terça-feira mostra que o Disque 100 registrou 12.344 denúncias relativas à violação de direitos de crianças e adolescentes.
O presidente do Conselho Tutelar Centro, José César Ramalho, concorda que as denúncias são fundamentais para o trabalho dos conselheiros, já que estes não podem ir de casa em casa para saber em quais há problemas.
''Uma vez recebemos uma denúncia de quatro crianças abandonadas em casa, enquanto a mãe, dependente química, ficava em um bar o dia todo. Fomos até o local e realmente ela estava no bar, em frente da casa, com o namorado. Nós entramos e ela nem viu. As crianças, todas pequenas, nem estranharam quando chegamos, deviam estar acostumadas com o entra e sai de pessoas. A casa estava toda suja, sem água e sem energia elétrica, as crianças estavam sem comer. Depois da denúncia as crianças foram entregues ao pai e ficaram bem'', explica.
Um outro caso que chamou a atenção dos conselheiros envolveu duas crianças também abandonadas pela mãe dentro de casa. ''Eram dois bebês, de 1 e 3 anos. Quando chegamos, um deles estava comendo espuma de um colchão e o outro estava meio desmaiado. Ela devia estar há pelo menos dois dias fora de casa e se os vizinhos não tivessem denunciado, nem sabemos o que poderia ter acontecido'', conta a conselheira Jaqueline Hipólito.
Os conselheiros afirmam que muitas mulheres saem para se prostituir e deixam os filhos sozinhos em casa. Os dois maiores motivos de denúncias recebidas pelo Conselho Tutelar Centro são de crianças abandonadas e crianças agredidas verbalmente. ''São casos onde o problema é mais aparente. É muito importante as pessoas denunciarem. E quando fizerem isso, precisamos que nos passem o endereço completo, não adianta apenas dizer que é uma casa com portão de tal cor, porque precisamos saber exatamente onde é o problema'', explica Jaqueline.
Indignação
Zilda Romeiro, juíza da 6 Vara Criminal, especializada em violência doméstica e familiar, afirma que toda pessoa que tem conhecimento de situações de violência tem a obrigação de denunciar. ''As autoridades irão se inteirar para poder tomar providências. Não temos estatísticas sobre quantos dos casos que chegam até nós vieram por meio de denúncias da comunidade. Na maioria das vezes são as próprias vítimas que denunciam, no caso das mulheres. As situações envolvendo crianças causam mais indignação e por isso as pessoas se preocupam em denunciar esses casos'', explica.
A juíza lembra que profissionais que presenciarem ou desconfiarem de uma situação de violência e não fizerem a denúncia podem ser processados por omissão. ''Às vezes eles não têm conhecimento, não sabem como proceder, por isso precisamos orientar esses profissionais.''
Mesmo não havendo uma estatística oficial, a magistrada percebe que ainda que lentamente o número de denúncias está crescendo. ''Tem aumentado a instauração de processos e o número de denúncias que chegam até as autoridades. Quem tem medo de sofrer algum tipo de represália do agressor, pode fazer isso de forma anônima'', explica.

Imagem ilustrativa da imagem Quando o silêncio machuca
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