Quando furtar é doença
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domingo, 03 de julho de 2005
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
Dentro de uma loja de shopping center, uma mulher elegante pega, furtivamente, um vidro de perfumes. Ao sair do local, quem leva a culpa do furto é o motorista. Na casa da amiga, uma caixinha que enfeitava a sala simplesmente some. A culpa recai sobre a empregada.
Todas essas cenas fazem parte da trajetória da personagem Haydée, interpretada pela atriz Christiane Torloni, na novela ''América'' da Rede Globo. Assim como na telinha, na vida real pacientes com cleptomania relutam em assumir a doença e procurar ajuda. Vergonha é o principal obstáculo.
A psicóloga Maria Zilah Brandão, do Instituto de Psicoterapia e Análise do Comportamento, em Londrina, explica que cleptomania é, sim, uma doença, a despeito de qualquer opinião de que o comportamento possa ser praticado apenas por pessoas mal-intencionadas. ''É doença, e classificada pelo manual de diagnóstico estatístico de doenças mentais como um transtorno do impulso''.
Ela explica que a doença se caracteriza pela dificuldade do paciente de se controlar perante algum tipo de situação. Fazem parte também dos chamados transtornos do impulso a piromania, provocação deliberada de incêndios; a tricotilomania, mania de arrancar o próprio cabelo, e o transtorno explosivo intermitente, quando a pessoa grita e agride outros de repente, sem motivo algum.
Em todos esses casos, a pessoa enfrenta situações de muita ansiedade, que é aliviada na prática desses comportamentos. O furto, por exemplo. ''A pessoa não tem auto-controle, cede àquele impulso, como o de usar drogas'', exemplifica. A ansiedade, explica Zilah, se manifesta inclusive fisicamente, com taquicardia, sudorese e tremedeira. ''Essa sensação só melhora na hora em que a pessoa pega o objeto. Ela sabe que é errado, mas o que pesa na hora é o alívio da ansiedade, e o prazer por ter vivido aquele situação''.
Os objetos furtados, explica Zilah, não são para uso próprio ou de alto valor. ''Por isso é diferente do ladrão, que furta objetos que vai usar, que têm utilidade para ele ou que ele vai vender'', enfatiza. Tanto é que depois do furto é comum a pessoa sofrer com arrependimento e culpa. ''Às vezes, a pessoa até devolve disfarçadamente os objetos, mas há também os que costumam colecioná-los'', afirma. E apesar dos portadores da doença agirem de maneira discreta para que não sejam flagrados, segundo a psicóloga, não costumam planejar os furtos com antecedência.


