A primeira reação é de perplexidade. Como pode uma mãe abandonar, ou pior, matar seu próprio bebê? Só nas últimas semanas, quatro casos do gênero chegaram ao conhecimento público no País, um deles em Londrina - mas há muitos e muitos mais. O fato é que grande parte das mães não consegue corresponder à figura idealizada pela sociedade: a da mulher sempre realizada e exultante com a chegada de um novo ser. Melhor do que condenar, famílias e profissionais devem criar condições para evitar que os problemas da mãe acabem em tragédia para ela e o recém-nascido.
O curto período de permanência da criança e sua mãe na maternidade, após o parto, pode ser determinante. Nas duas maternidades públicas de Londrina - a municipal e a do Hospital Universitário (HU) - há equipes preparadas para detectar distúrbios psicológicos nas mulheres, dar suporte àquelas que desejam abrir mão dos filhos e encaminhar casos para a Justiça. ''Há gestantes que, ao dar entrada no hospital, já verbalizam que não querem ficar com a criança'', afirma Renicler Oliveira de Assis, chefe da divisão de serviço social e assistente social da maternidade e da UTI Neonatal do HU.
Contrariando o desejo das gestantes que dizem preferir ''nem ver o bebê'', Renicler conta que nenhum caso é remetido à Justiça antes do parto. ''É muito comum as mães desistirem de entregar os filhos depois de segurá-los nos braços, amamentá-los, estabelecerem um vínculo'', explica. A assistente social acrescenta que algumas grávidas temem que os filhos nasçam com malformações decorrentes de tentativas de aborto, mas decidem assumi-los ao vê-los perfeitos.
Outro expediente usado para reverter a decisão da mãe ainda no hospital é buscar a família dela. Segundo Renicler, muitas mulheres solteiras temem ficar com os bebês porque omitiram a gravidez dos parentes e acham que não terão apoio. ''A maioria não são adolescentes, são mulheres adultas, porém dependentes, que já têm filhos e acham que a família não vai dar conta de sustentar mais um. Mas aí, quando ficam sabendo, os familiares se reorganizam e aceitam o bebê'', afirma.
A situação se complica quando a mãe manifesta uma rejeição ''velada'' à criança que acabou de nascer. ''Quem detecta isso é a enfermagem: a mãe se recusa a amamentar, fica impaciente com o choro da criança, sai muito do quarto para andar, fumar'', descreve Renicler. Pode ser um comportamento passageiro. Mas talvez sejam os primeiros sinais de uma depressão pós-parto (DPP), transtorno de humor que pode levar até ao infanticídio (assassinato da criança).

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