Londrina - O século passado foi marcado pelo surgimento de vários movimentos e correntes religiosas. No Brasil, que recebeu influência cultural de vários países, o pluralismo observado atualmente é ainda maior. Mas, se a diversidade intensificou-se ao longo dos anos, a intolerância religiosa, também. Com isso, afloram as dificuldades de compreensão e respeito mútuo, fazendo que julgamentos e até mesmo disseminação do ódio - o contrário do amor, que pregam as religiões - acabem sendo o resultado de um discurso inflamado. Ainda assim, famílias mostram que é possível conviver em harmonia, mesmo com hábitos e tradições diferentes.
Vindo de uma família cujas práticas religiosas eram calcadas na espiritualidade oriental de matriz africana, desde muito cedo o professor universitário Dejair Dionísio recebeu influência dessa prática. ''Houve uma transmissão natural do conhecimento, os quais mantenho até hoje'', conta ele, que somente na idade adulta começou a frequentar o candomblé. Apesar disso, foi batizado e até mesmo coroinha de igreja católica. ''Naquele tempo não havia a liberdade religiosa que existe hoje. A criança não era matriculada na escola caso não fosse batizada'', lembra.
Já casado e com filha, Dionísio diz nunca ter imposto nada à família, mesmo que a ex-esposa, na época, fosse da mesma religião. Tanto que a filha frequentou a igreja católica, inclusive, a catequese. Contudo, Thainã Eloá Silva Dionísio, hoje com 20 anos, lembra que, ainda criança, percebeu que não se identificava com os ensinamentos e discordava de alguns discursos. ''Comecei, então, a frequentar uma igreja evangélica, a qual também não me adaptei, até conhecer a igreja na qual estou ate hoje, também evangélica.''
De lá para cá, as convicções religiosas de cada um só se fortaleceram ao mesmo tempo em que a harmonia foi construída na relação, ainda que não morem na mesma casa. ''O maior problema das brigas religiosas são os praticantes. Achar que se é o dono da verdade e não compreender a escolha do outro é um erro. Quando mais nova, era mais reticente e até mesmo intransigente quanto às escolhas dele. Mas a maturidade e o conhecimento trouxeram respeito com relação às nossas diferenças'', pontua a jovem, que estuda Teologia e pretende cursar Psicologia.
Dionísio partilha de opinião semelhante e pondera que haja falta de reflexão nas pessoas. ''Precisamos conhecer mais a história do nosso país e as dos outros, também. Quando fala-se mal de outra religião, perde-se a oportunidade de explicar a sua própria. Alimentar o ódio, ainda mais sem fundamentação como ocorre, é uma postura retroativa. E isso vale em todas as situações da vida; não somente na religião'', resume o professor.

mockup