Quando a cura vem pela música
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de setembro de 2005
Simone Iwasso<br>Agência Estado 
O hino de um clube de futebol foi decisivo na reabilitação de um paciente que sofrera choque anafilático. Para mulheres com dores crônicas, a melhora veio após audições de um trecho de Wagner. Em crianças com problemas de relacionamento, canções infantis foram eficazes. E música brasileira é usada para diminuir a ansiedade de pacientes internados em um hospital. Diferentes, os exemplos são resultados da musicoterapia - técnica que, como o próprio nome diz, utiliza-se dos sons e das estruturas musicais para fins terapêuticos.
Mas não são só pacientes internados ou em estado grave que se beneficiam do método. De acordo com os musicoterapeutas, que no Brasil precisam ser formados em um curso de graduação reconhecido pelo Ministério da Educação, a música auxilia crianças e adultos, tanto na recuperação de problemas físicos, como na melhora do estado de ânimo.
''Não importa qual seja a música. Tive um paciente que não respondia a nenhum som que eu colocava. Ele tinha uma corrente com um pingente do Corinthians, time de futebol dele. Recorri ao hino do clube e ele começou a responder à terapia'', explica a musicoterapeuta Marilena do Nascimento, coordenadora do setor de musicoterapia da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Ela explica o porquê do resultado. ''Cada estrutura musical provoca uma resposta neurológica no ser humano. Mas é preciso conhecer as músicas que têm sentido para a pessoa, que formam a identidade musical dela.''
Com esse perfil identificado, os profissionais usam audições passivas, nas quais o paciente apenas ouve as músicas, e sessões com instrumentos. ''A pessoa não precisa conhecer música ou saber tocar algum instrumento. O importante é desenvolver habilidades, como coordenação motora, promover um relaxamento ou mesmo fortalecer o tônus muscular'', explica a enfermeira Elizeth Leão, autora de pesquisa feita na Universidade de São Paulo (USP) com 90 mulheres que sofriam de dores crônicas e tiveram melhoras após audições com músicas de Wagner. ''Essa música em especial provocou reações catárticas nelas, que se lembraram de situações de perda. Isso tem um efeito terapêutico, que resultou na diminuição da dor.''
Ela também coordena um projeto que leva sessões de música brasileira aos pacientes de um hospital para minimizar o impacto da internação. ''Fizemos um levantamento do estado deles antes e depois das sessões. A maior parte teve diminuição da ansiedade e dos sintomas de depressão durante e depois de ouvirem as músicas.''
Os resultados, e o próprio método, estão embasados em conhecimentos da neurologia e psicologia. Assim que os sons chegam aos ouvidos, eles são transformados em impulsos que percorrem os nervos até chegar ao tálamo, região do cérebro onde estão concentradas as emoções, sensações e os sentimentos.
Com isso, desencadeiam reações em todo o corpo, influenciando na respiração, nos batimentos cardíacos, na pressão arterial e no tensionamento dos músculos. Estudando as reações provocadas pelos tipos de estrutura musical, o musicoterapeuta consegue desenvolver um programa específico para as necessidades de cada paciente.


