Qualidade de vida para pacientes de mieloma múltiplo
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sexta-feira, 09 de novembro de 2012
Micaela Orikasa <br>Reportagem Local 
Rio - O mieloma múltiplo é a segunda doença do sangue com maior número de pacientes no mundo, somando mais de 700 mil. Trata-se de um tipo de câncer que tem origem no plasmócito (célula que integra o sistema de defesa contra infecções), afetando a produção de glóbulos vermelhos e comprometendo o funcionamento normal do sistema de defesa do organismo.
O grande problema é que o mieloma múltiplo é desconhecido por muitos brasileiros, inclusive por médicos, o que causa uma demora no diagnóstico e resulta, muitas vezes, em um tratamento inadequado. É por estas questões que o Internacional Myeloma Foundation (IMF) deu início a uma campanha global com o objetivo de informar médicos, pacientes e a população em geral sobre a possibilidade de tratamento com qualidade de vida, apesar da doença não ter cura.
No Brasil, o tema foi abordado durante o Congresso da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular - HEMO 2012, promovido pela IMF, de 8 a 11 de novembro, no Rio de Janeiro. De acordo com a entidade, 23 mil portadores da doença são cadastrados no Brasil.
''Nosso desejo é que todos os pacientes tenham acesso ao tratamento adequado. No Brasil, o atraso no diagnóstico dificulta muito a qualidade de vida dessas pessoas. Para se ter uma ideia, a maioria dos casos leva de seis meses a dois anos para serem diagnosticados. Muitas pessoas conhecem a leucemia, mas não o mieloma múltiplo. E só conhecendo a doença é possível ter um diagnóstico precoce'', ressaltou a coordenadora do Ambulatório de Mieloma Múltiplo da Santa Casa de São Paulo e diretora da Internacional Myeloma Society, Vânia Hungria.
Ela explica que o quadro clínico do mieloma é a doença óssea, com fraturas e dores muito fortes. A predominância é no sexo masculino, a partir dos 60 anos, e a incidência é de quatro em cada 100 mil habitantes. ''Um simples exame, a eletroforese de proteínas, pode muito bem sugerir a presença de uma proteína que é produzida pela doença no sangue e, diante disso, o corpo clínico seria direcionado a realizar um estudo da medula óssea. Um grande avanço seria a realização deste exame periodicamente'', afirmou.
Para Paul Richardson, professor associado de medicina da Harvard Medical School, diretor clínico do Centro de Mieloma Lipper Jerome, no Instituto do Câncer Dana-Farber e conferencista internacional, a intenção é estender a doença o máximo possível, já que ainda não existe cura. ''Para isso, é preciso um medicamento tolerável, potente e com menos efeito colateral. Nos Estados Unidos, a combinação de medicamentos, sendo um deles a Lenalidomida, tem aumentado o tempo de vida dos pacientes, que antes era de 2 a 3 anos e passou para 7 a 10, nos últimos tempos'', disse. Ainda de acordo com Richardson, ''o paciente brasileiro sofre mais do que os de outros 80 países que oferecem acesso a tratamentos adequados para a doença''. Tratamentos estes que envolvem uma combinação de medicamentos, alguns dos quais não se têm acesso no Brasil.
Segundo Vânia Hungria, no Brasil, a Lenalidomida foi reprovada pela Anvisa e os pacientes que estão fazendo uso deste medicamento só obtiveram autorização mediante uma ação judicial. ''O desenvolvimento das novas drogas evoluiu muito, mas nesse sentido estamos atrasados no Brasil'', declarou, lembrando que estudos já confirmaram os resultados positivos da medicação, incluindo os baixos efeitos colaterais.
Segundo o médico Angelo Maiolino, professor-adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Programa de Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, a linha de tratamento mais comum no País é o uso de medicamentos combinados para a realização de transplante autólogo (quando o paciente é o próprio doador, através de suas células-tronco preservadas, possibilitando fortes doses de quimioterapia).
Porém, somente cerca de 30% dos pacientes brasileiros recebem transplante e nem todos os centros têm acesso ao transplante autólogo da medula óssea. ''Os pacientes precisam ter acesso aos melhores tratamentos e tão importante quanto é acelerar a busca para a cura dos pacientes com mieloma'', reforçou a especialista Vânia Hungria.
* A repórter viajou a convite da IMF


