A dentista Ana Karina Moreira Marquezine é uma pessoa apaixonada pelo seu trabalho. Dedicada e perfeccionista, ela chegou a ler livros inteiros em menos de dois dias, se afastou de amigos, dormia pouco e conciliava diferentes cursos junto a um mestrado e o trabalho. O ritmo ''workaholic'' de ser chegou a levá-la a procurar ajuda médica, depois que uma crise alérgica a manteve internada por dez dias no hospital.
Assim como Ana Karina, muitos sofrem por exagerar na dose quando o assunto é fazer aquilo que dá prazer. No caso da dentista, o equilíbrio de hoje tem sido fundamental para levar um ritmo de vida ''normal''. ''Atualmente aceito melhor a minha 'não perfeição' em todos os aspectos. Sou mais paciente com o ritmo da vida e dos acontecimentos e respeito que o dia tem somente 24 horas'', diz.
Ao contrário da maioria dos transtornos físicos, não há clareza por parte de especialistas sobre a gênese de distúrbios comportamentais, estando esses mais associados a um conjunto de fatores. Assim como qualquer tipo de transtorno físico, quando apresentado de modo recorrente, a orientação de especialistas é que o indivíduo ou a família busque apoio profissional, principalmente quando os sintomas estiverem causando dores ou sofrimentos.
O psicólogo e atual chefe do departamenro de psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Adriano Holanda, lembra que transtornos comportamentais afetam 25% da população em algum momento da vida. Na maioria dos casos, segundo ele, é necessário um tratamento conjunto envolvendo médico psiquiatra, psicólogo, bem como outros tipos de apoio. ''O nome transtorno se refere à condição de uma síndrome ou padrão comportamental (ou psicológico) que possui relevância clínica, ocorrendo com um indivíduo e associado a sofrimento ou incapacitação como juízo, percepção, afetividade, entre outros'', diz Holanda.
Segundo ele, os transtornos são caracterizados por alterações (clinicamente significativas) do modo de pensar e do humor (emoções) ou por comportamentos associados com angústia pessoal. ''O transtorno é algo universal que afeta pessoas de todos os países e sociedades, em todas as idades, mulheres e homens, independente da classe social. A referência é a recolocação do sujeito diante de sua condição, numa perspectiva de ressocialização e de prevenção'', explica.
Mas o psicólogo reforça que nem toda deterioração humana significa distúrbio. O simples fato de uma mudança brusca de condição ou um evento específico não constituem necessariamente o surgimento de um distúrbio. ''É necessário se atentar para o contexto no qual a pessoa está inserida. Comportamentos 'estranhos' não se constituem necessariamente em transtornos. O que há são indicadores, como o fato de que a maioria dos transtornos mais graves ocorrem primordialmente a partir da adolescência'', diz.
Os tratamentos podem ser vários, mas o fundamental, de acordo com Holanda, é perceber o momento certo de encontrar o melhor apoio e tratamento possível, além de observar quando as ações começam a fugir do controle. ''Certos transtornos passam a 'fazer parte' da vida do sujeito, levando-o a ter que se adaptar aos mesmos. Do mesmo modo que as pessoas vivem como 'diabéticas' ou 'hipertensas', tomando os devidos cuidados e vivendo sua vida com esta ou aquela restrição, mas sem sair dela. A idéia de 'cura', enquanto remissão 'total' de sintomas, não existe, mas o controle disso tudo é possível'', finaliza.

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