Chicago (AE-REUTERS) - Colecionar arte é geralmente visto como uma coisa de elite, mas os quadros kitsch pintados através do acompanhamento de números por artistas anônimos se tornaram colecionáveis e podem em breve até ter sua própria exibição temporária no Smithsonian.
A mania dos quadros pintados com números teve início meio século atrás a partir da idéia de Dan Robbins (hoje com 73 anos), ilustrador da Companhia Palmer Paint, de Detroit. A loucura pegou no meio dos anos 50, quando milhões dos kits "Craft Master" da companhia e suas imitações foram vendidos, impulsionando a venda de tinta a óleo em geral e despertando a criatividade artística em toda uma geração, disse Robbins em uma entrevista realizada em sua casa no subúrbio de Chicago. Ele recentemente publicou um livro sobre a mania e suas experiências entitulado "O que aconteceu com as pinturas-por-números?", onde escreveu que a idéia lhe ocorreu depois que soube que Leonardo da Vinci colocava números nos rascunhos que ele dava para seus aprendizes terminarem.
O primeiro desenho pinte-por-números de Robbins - onde pequenas áreas da tela são numeradas para corresponderem às cores da palheta incluída no kit - era uma natureza morta abstrata de um vaso e um prato de frutas que refletia o Modernismo. Mas Max Klein, seu chefe na já fechada Palmer Paint Co., não aprovou o quadro abstrato e pediu a Robbins que criasse desenhos que as pessoas quisessem pintar. "Era artístico demais. Quando o mostrei para meu chefe, ele disse Isto é para pessoas que fingem ser artistas, e eu odeio isso", lembrou Robbins. Assim nasceu a aparência geral de muitos desenhos pinte-por-números: gatinhos engraçadinhos, paisagens marítimas serenas e reproduções de obras-de-arte de Rembrandt, da Vinci e Norman Rockwell. "O que aconteceu nos últimos quatro ou cinco anos é que surgiu um interesse em colecionar-se quadros pintados com números. Eles são parte de nossa herança cultural e é legal colecioná-los", disse Robbins.
O colecionador Larry Rubin, um psicólogo de Fort Lauderdale, na Flórida, disse que cobriu as paredes de seu escritório com muitas de suas 300 telas compradas em mercados de pulgas, vendas de bairro e até mesmo em leilões na Internet. Sua esposa já disse que tolerará apenas mais alguns trabalhos na casa deles. "Eles deixam muitos pacientes nostálgicos ... e evocam certos pensamentos e sentimentos que eu uso na terapia", disse Rubin. "As pessoas ou também pintaram quadros assim, ou conhecem alguém que o fez, ou os odeiam". Telas pintadas através de números bem executadas estão se tornando difíceis de encontrar, ele disse, notando que uma cópia assim pintada da "Última Ceia", de da Vinci, recentemente foi vendida por US$ 175. Ele disse que o pequeno noticioso que faz trimestralmente já tem 17 "almas em perigo" como assinantes.
Também interessado está o curador Larry Bird, do Museu Nacional Smithsonian de Arte Americana em Washington, que disse ter proposto a montagem de uma exibição de quadros pintados seguindo números no ano que vem. "Eu vejo isso como um olhar sobre a mania dos pinte-por-números", disse Bird, adicionando que usará dúzias de telas cedidas ao museu por Max Klein. "Nada exacerbou a tensão entre a alta e a baixa cultura tão bem como esta grande mania popular, exceto talvez pela televisão. Os críticos entraram em órbita com isso...chamando as pessoas que pintaram estes quadros de imbecis", disse Bird. "É uma coisa divertida. Eu gosto das pinturas finalizadas. Elas são ingênuas e bem feitas". Dúzias de designers trabalharam duro para criar desenhos pinte-por-números e suas palhetas, e alguns até criaram trabalhos a mão livre de sua própria autoria que acabaram em museus locais, disse Robbins.
Ele disse que ocasionalmente ensina aos estudantes - para a consternação de muitos professores - que os melhores desenhos pintados-por-números podem ser comparados às pinceladas incertas dos trabalhos impressionistas, que utilizavam pequenas áreas de cores para evocar luz, sombras e volumes. "Este pode ser o primeiro passo para as pessoas adquirirem senso de sombreamentos, composições ou apenas para aprenderem a segurar um pincel", afirmou Bird. Para os milhões de pessoas que tiveram prazer, ou apenas passaram o tempo pintando os pré-ordenados trabalhos de arte, os benefícios podem ter sido maiores. "Eles são artistas no coração, geralmente introspectivos. Eles usam as pinturas para preencher uma necessidade", disse o psicólogo Rubin sobre as pessoas que lhe venderam seus trabalhos pintados através de números. "Conheci uma mulher que pintou um Jesus. Ela o pendurou sobre a cama. Esta mulher era casada com um alcoólatra. Depois que ele morreu, ela disse não precisar mais do quadro".

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