Quadrilha age em assentamentos no PR
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quarta-feira, 22 de setembro de 2004
Luciana Pombo<br>Equipe da Folha 
Curitiba- A Polícia Federal (PF) montou uma operação especial sigilosa para flagrar a derrubada de pinus no assentamento João Maria Agostinho, em Teixeira Soares (50 km ao sul de Ponta Grossa). Depois de dois meses de investigações, foram apreendidos caminhões com madeira cortada irregularmente e material para desmatamento de árvores nativas e federais. A operação faz parte do projeto ''Moralização nos Assentamentos'', promovido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná.
De acordo com o superintendente Celso Lisboa de Lacerda, existem quadrilhas especializadas que atuam nos assentamentos espalhados pelo Paraná. Os criminosos se utilizariam da inocência dos mais humildes para manipular e desmatar áreas nativas. Outro grupo atuaria ainda na venda de lotes em assentamentos para projetos de chácaras de lazer. ''São verdadeiras quadrilhas que se enriquecem às custas dos assentados. E isso vai acabar. O tempo da impunidade está no fim'', afirmou ontem Lacerda, em entrevista à Folha.
O assentamento é o primeiro que foi averiguado a pedido do Incra pela Polícia Federal. A área, que foi comprada pelo Incra em 2000, abriga atualmente 50 famílias e tem cerca de 190 hectares de pinus para reflorestamento. O pinus acabou fazendo parte dos lotes de algumas famílias. Na época, foi firmado um acordo com as famílias para que a madeira fosse explorada e vendida. Os recursos seriam revertidos para benefício dos assentados com a construção de escolas, postos de saúde, estradas e infra-estrutura. No ano passado, começaram a aparecer denúncia de que um pequeno grupo estaria explorando a madeira e usando o dinheiro para benefício próprio. No segundo semestre, o Incra resolveu então suspender o corte da madeira (que é federal) e cancelar a autorização em termo de acordo para venda da madeira.
''Mesmo com esta atitude, o grupo continuou atuando. São três assentados que agem no comando do corte com o respaldo de madeireiros da região de Ponta Grossa. Isso pode ser caracterizado como furto de madeira, já que a área é federal e o corte está proibido'', enfatizou o superintendente. Os assentados foram punidos igualmente, antes da atuação da força-tarefa da PF, com o bloqueio de todos os recursos federais de crédito para safra e para habitação.
Os levantamentos dos 20 agentes da PF que passaram a terça-feira em Teixeira Soares mostrou que a madeira era vendida por um terço do valor e os recursos ficavam com um grupo seleto. Entretanto, a mão-de-obra para o corte era dos próprios assentados. ''O que acontece é que os assentados são até ameaçados. Eles são obrigados a fechar os olhos para a destruição e temem apontar os culpados. Os mais instruídos tiram proveito dos mais carentes. Inclusive proveito financeiro. Temos que tirá-los dos assentamentos o mais rápido possível'', disse Lacerda.
O superintendente do Incra afirmou que o resultado das investigações da PF serão usados para a concretização da anulação dos contratos com os mentores da derrubada das árvores e expulsão deles do assentamento. Ao todo, a PF apreendeu quatro caminhões, uma caminhonete e dois tratores carregados com toras, além de sete moto-serras. Ninguém foi preso. Os nomes dos identificados como mentores do desmate estão sendo mantidos em sigilo para não atrapalhar as investigações.


