Puxadores de samba são profissionais
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de fevereiro de 1999
Por Cláudia Fontoura 
São Paulo, 01 (AE) - Eles vêm atrás do ritmo eletrizante dos pandeiros, surdos, tamborins e reco-recos da bateria de uma escola de samba. Os intérpretes de sambas-enredos são contratados para levantar o público do sambódromo. Não têm agremiação certa nem preferida, mas defendem a escola com a voz durante os 65 minutos de desfile.
"No samba é como no futebol", brinca Neco da Mocidade, diretor de carnaval da Mocidade Alegre. "Os intérpretes são profissionais e trabalham enquanto durar o contrato."
Os talentos são "descobertos" durante as eliminatórias para escolha do samba-enredo. Em geral, eles vão às quadras a convite dos compositores para mostrar o samba à comunidade. "Se o cara conseguir fazer o samba crescer, será convidado para cantar na avenida", diz Neco.
O puxador passa a integrar a "cozinha" da escola e sai no carro junto com o intérprete oficial. Com o tempo, pode subir para oficial dentro da própria escola ou ser "descoberto" por uma outra.Foi o que aconteceu com Nilson Valentim, de 23 anos. Ele começou aos 13 anos como segundo intérprete da Unidos do Peruche e ficou quatro anos na "cozinha" da Gaviões da Fiel. "Fui disputar um samba de uns amigos na Mocidade no fim de 1997 e acabei convidado para ser oficial", diz.
Sua posição na escola pode durar anos ou só um carnaval."O intérprete não tem agremiação fixa", diz Valentim, que quer tornar-se cantor profissional. "A gente gosta é de cantar samba, não importa em qual escola."
A Mocidade Alegre terá um grupo de peso puxando o samba este ano. Além de Valentim, foram convidados os cariocas Neguinho da Beija-Flor e Vaguinho, da Acadêmicos do Tucuruvi. Na Tucuruvi, Vaguinho, de 32 anos, desfila antes e vai puxar o samba na companhia de Kátia e Sheila, as gêmeas do Dupla Face que estréiam no carnaval paulistano. "São gêmeas, altas, loiras e têm vozes lindas", diz. Ele é um exemplo da profissionalização dos puxadores. "Procuro não me envolver e cumpro o que está no contrato que assinei com a agremiação", explica. "Depois que termina meu trabalho, vou para casa."
Sem a fama de Vaguinho e Neguinho, mas muito conhecido no "mundo do samba", Douglas Aguiar dos Santos, o Douglinhas, de 32 anos, começou em 1986, na Pérola Negra e depois de três anos passou para o time da águia de Ouro. "Sempre sonhei ser puxador"
diz.
O veterano Royce do Cavaco vê com simpatia a nova geração de puxadores. "A molecada segue o nosso estilo, mas está sempre inventando e se modernizando", diz.
Mudança - Segundo Royce, que começou aos 15 anos na Rosas de Ouro, a maneira de puxar o samba mudou muito. "Antigamente, os puxadores não se atreviam a fazer cacos", diz. Mas com o tempo, a comunicação do intérprete com o público tornou-se indispensável. "O caco dá gás para a escola."
Thobias da Vai-Vai, de 40 anos, que é contemporâneo de Royce, é exceção entre os puxadores. Nunca mudou de agremiação."Cheguei à Vai-Vai com o sonho de ser quem sou hoje", diz.
E é como Thobias, Royce e Eliana de Lima, da Leandro de Itaquera, que muitos jovens intérpretes sonham ser. Começaram nas quadras de escolas de samba e tornaram-se cantores profissionais. Fora do carnaval, Thobias, por exemplo, fatura com shows de samba e mulatas. "Sou o Sargentelli do ano 2000", brinca. "Já estou lançando meu quinto CD."


