Putin deve ter de enfrentar comunista no segundo turno Do enviado especial PEPE ESCOBAR
Moscou, 26 (AE) - A julgar pelos primeiros boletins, a Rússia vai esperar mais três semanas para saber o que realmente significa a "ditadura da lei" de Vladimir Putin. Apenas 54% dos 108 milhões de eleitores registrados atenderam ao apelo televisivo do delfim de Boris Yeltsin e presidente em exercício para "cumprir seu dever constitucional" na eleição presidencial de hoje: a barragem de propaganda - do Kremlin e da mídia - projetava uma decisão já no primeiro turno.
Até o fim da noite de hoje, e com resultados apurados apenas nas remotas províncias do extremo oriente e na Sibéria - onde são fortes os votos comunistas e de protesto -, Putin obtinha menos de 46%, seguido por surpreendentes 31% concedidos ao comunista não- reconstruído Guennadi Zyuganov. Esses votos já contabilizados representam acima de tudo o protesto de pensionistas à beira da miséria e anti-Putin, visto como uma mera continuação de Yeltsin. As últimas pesquisas - publicadas na quarta-feira - registravam no máximo 22% para Zyuganov, e mais do que o dobro, entre 53% e 57%, para Putin.
No entanto, é certo que a era pós-Yeltsin - o primeiro líder da história da Rússia a voluntariamente abdicar do poder, na virada do ano, deve começar daqui a três semanas: Zyuganov, em um segundo turno, deve ser facilmente vencido, como o foi por Yeltsin em 96. Putin, no entanto, não terá o mandato límpido que desejava: será obrigado a concluir tortuosos acordos, por exemplo, com governadores regionais - quando o próprio Putin já pensava em reduzir sua influência.
A questão principal permanece: qual será a estratégia do exímio carateca e ex-agente da KGB Putin para transformar o status desse "país rico de gente pobre" - imagem que o candidato Putin e seu comitê eleitoral tomaram do cineasta Nikita Mikhalkov. A sagração - ainda que retardada - de Putin deve marcar o advento de uma nova geração no poder, que estudou sob Brejnev, começou sua carreira nos últimos anos do socialismo sob Gorbachev, e se consolidou nos loucos anos Yeltsin. Esta geração considera intolerável o declínio social, demográfico, político e econômico da Rússia, e está determinada a reverter o processo.
Politólogos vão passar anos decifrando os méritos de como Putin chegou a ponto de ser eleito no vácuo de uma "não-campanha" - como reconhece a própria vice-diretora de seu comitê eleitoral, Ksenia Ponomaryova: "A estratégia por trás da campanha era de que não havia campanha." Já na redação do diário Izvestia, hoje, imperava o cinismo: para seus redatores, houve campanha, mas em puro estilo Brejnev, apoiada nas soberanas fontes de informação controladas pelos Kremlin, os canais estatais ORT e RTR. Os parcos críticos visíveis de Putin vêm a emergência na Rússia pós-Yeltsin de uma "guarda pretoriana": um grupo armado - no caso os serviços secretos - constituindo o nó duro do Estado.
Hoje de madrugada a Rússia adiantou os relógios para o horário de verão. Foi uma votação calma nas 90 mil sedes eleitorais espalhadas por 11 fusos horários. Mais de 50% votaram no norte e praticamente ninguém no sul, onde está a resistência dos guerilheiros chechênios.
Em Moscou, a polícia municipal examinava documentos de qualquer pedestre com aparência do Cáucaso. Putin posou no estilo "não- campanha": foi ao futebol no sábado - onde recebeu um ovação - descansou na sauna de sua dacha na tarde de domingo, e foi dormir cedo, conhecendo apenas os primeiros resultados.
Uma pesquisa informal de manhã, após os dramáticos cantos litúrgicos da Igreja Ortodoxa, confirmava que intelectuais urbanos e estudantes na maioria absoluta votaram no liberal Grigori Yavlinski, ou em "nenhum dos anteriores". O problema de Yavlinski é uma linguagem incompreensível para a imensa nebulosa que ainda rumina sua nostalgia soviética - como nas remotas províncias árticas e orientais.
O que preocupa os eleitores russos é acima de tudo a economia, e não o massacre da Chechênia. Poucos - à parte intelectuais urbanos - também se importaram com o passado de Putin na KGB: os russos reconhecem que a KGB recrutou as figuras mais inteligentes, competentes e cosmopolitas de sua geração.
Uma verdadeira democracia, no entanto, só funciona com uma forte classe média e instituições civis - elementos que a Rússia definitivamente não herdou da URSS. Democratas na Rússia ainda agonizam em torno de uma questão-chave: o país pode ter fracassado no pós-guerra fria em boa parte porque é uma democracia, e a China pode ter dado certo, ao menos em economia, porque é uma ditadura.
Putin não vai perder o sono até o dia 16 de abril porque tem certeza de herdar uma fenomenal concentração de poder originária da Constituição de 1993 - "ditada" sob medida por Yeltsin. Putin - como Yeltsin - será imune a processos e poderá praticamente governar por decreto. Pode nomear e demitir o primeiro-ministro, convocar eleições parlamentares, formar e dirigir o Conselho de Segurança (que aprova operações militares), decretar lei marcial e apontar ou demitir o comandante das Forças Armadas.
Para Viktor Linnik, ex-correspondente em Washington e editor do jornal Slovo, a Rússia precisa de mais lei e ordem, depois da democracia anárquica da era Yeltsin. Há alguma ambivalênca entre os intelectuais urbanos: frisam que de 1990 a 1996 Putin foi vice- prefeito de São Petersburgo - um dos governos regionais mais mais corruptos. Mas se a maioria dos russos não ergue sobrancelhas com os métodos de "Putin-de-Ferro" - acusados de stalinistas na Chechênia - , para o resto do planeta a ameaça das máfias e potenciais terroristas nucleares passou a ser muito maior do que os tanques e a infantaria do ex-todo-poderoso Exército Vermelho, reduzido a pouco mais de 1 milhão de membros (eram 5 milhões durante a URSS).
Putin só anuncia seu plano econômico depois do resultado final das eleições. O plano será em grande parte uma obra de German Gref, diretor de um Centro de Estudos Estratégicos montado por Putin e com amplos fundos privados. Outros personagens que devem permanecer em primeiro plano são Mikhail Margelov, diretor do organismo estatal que coordena a informação sobre a Chechênia, e Mikhail Kasyanov - atual ministro das Finanças e possível primeiro-ministro. Em relação ao início dos anos 90, há uma carência de em média 20% para financiar tudo - educação, saúde, investimentos produtivos. Uma de poucas promessas eleitorais de Putin foi a de colocar a oligarquia em seu devido lugar. Um teste fundamental será como vai lidar com o arrogante megaoligarca Boris Berezovski, "O Sombra" do círculo íntimo de Yeltsin.





