Moscou, 26 (AE) - Era 1 hora da manhã em Moscou quando Vladimir Putin, descontraído e de suéter, irrompeu em cadeia nacional durante meia hora face a uma brigada de jornalistas russos. Nunca se viu nada igual na era Yeltsin, e muito menos sob a URSS. O resultado parcial da eleição naquele momento atribuía a ele 49,9% dos votos. Putin estava a um passo da vitória no primeiro turno.
Em sua primeira entrevista coletiva a sangue frio desde o início do ano, Putin comportou-se como um profissional - de mídia, não de segredos. Estava relaxado porque passou a tarde na sauna, em sua dacha no campo, e teve tempo de descansar. Disse que considerava a mesma coisa uma vitória no primeiro ou no segundo turno. Dirimiu a alta e surpreendente votação do comunista Guennadi Zyuganov como apenas um "voto de protesto". Pensou vários segundos antes de afirmar que dele a Rússia não poderia esperar milagres - apenas trabalho duro.
Pródigo em generalidades, e projetando sem muito esforço a imagem de um líder jovem, enérgico e honesto, Putin não falou de nada específico de seu programa de governo. Defendeu a intervenção na Chechênia como a "única maneira de unificar a sociedade russa". Declarou-se disposto a conversar com Zyuganov e o liberal Grigori Yavlinski e a ouvir suas sugestões - contanto que não sejam "partidárias".
Acabou a coletiva menos de meia hora depois: "Às 10 da manhã temos de trabalhar, há um governo a ser tocado." Às 2 horas da manhã em Moscou, Putin havia passado o selo de 50%, de acordo com a agência Itar-Tass: estava a ponto de tornar-se o novo czar da Rússia.
Poucas horas antes, os russos tinham experimentado a impressão de que teriam de esperar até o dia 16 para saber o que realmente significa a "ditadura da lei" de Putin. Apenas 54% dos 108 milhões de eleitores registrados atenderam ao apelo televisivo do delfim de Boris Yeltsin e presidente em exercício para "cumprir seu dever constitucional" na eleição presidencial de ontem.
Até o começo da noite e com resultados apurados apenas nas remotas províncias do extremo oriente e na Sibéria - onde são fortes os votos comunistas e de protesto -, Putin obtinha menos de 46%, seguido por surpreendentes 31% concedidos ao comunista não- reconstruído Zyuganov. Esses votos representam acima de tudo o protesto de pensionistas à beira da miséria e anti-Putin, visto como uma mera continuação de Yeltsin. As últimas pesquisas - publicadas na quarta-feira - registravam no máximo 22% para Zyuganov, e mais do que o dobro, entre 53% e 57%, para Putin.
Putin teria todas as condições para vencer no segundo turno, mas, nesse caso, não teria o mandato límpido que deseja: seria obrigado a concluir tortuosos acordos, por exemplo, com governadores regionais - quando o próprio Putin já pensava em reduzir sua influência.
A questão principal permanece: qual será a estratégia do exímio carateca e ex-agente da KGB Putin para transformar o status desse "país rico de gente pobre" - imagem que o candidato Putin e seu comitê eleitoral tomaram do cineasta Nikita Mikhalkov. A sagração de Putin deve marcar o advento de uma nova geração no poder, que estudou sob Brejnev, começou sua carreira nos últimos anos do socialismo sob Gorbachev, e se consolidou nos loucos anos Yeltsin. Esta geração considera intolerável o declínio social, demográfico, político e econômico da Rússia, e está determinada a reverter o processo.
Politólogos vão passar anos decifrando os méritos de como Putin chegou a ponto de ser eleito no vácuo de uma "não-campanha" - como reconhece a própria vice-diretora de seu comitê eleitoral, Ksenia Ponomaryova: "A estratégia por trás da campanha era de que não havia campanha." Já na redação do diário Izvestia, hoje, imperava o cinismo: para seus redatores, houve campanha, mas em puro estilo Brejnev, apoiada nas soberanas fontes de informação controladas pelos Kremlin, os canais estatais ORT e RTR. Os parcos críticos visíveis de Putin vêm a emergência na Rússia pós-Yeltsin de uma "guarda pretoriana": um grupo armado - no caso os serviços secretos - constituindo o nó duro do Estado.
Hoje de madrugada a Rússia adiantou os relógios para o horário de verão. Foi uma votação calma nas 90 mil sedes eleitorais espalhadas por 11 fusos horários. Mais de 50% votaram no norte e praticamente ninguém no sul, onde está a resistência dos guerilheiros chechênios.
Em Moscou, a polícia municipal examinava documentos de qualquer pedestre com aparência do Cáucaso.
Uma pesquisa informal realizada na manhã de hoje, após os dramáticos cantos litúrgicos da Igreja Ortodoxa, confirmava que intelectuais urbanos e estudantes na maioria absoluta votaram no liberal Grigori Yavlinski, ou em "nenhum dos anteriores". O problema de Yavlinski é uma linguagem incompreensível para a imensa nebulosa que ainda rumina sua nostalgia soviética - como nas remotas províncias árticas e orientais.
O que preocupa os eleitores russos é acima de tudo a economia, e não o massacre da Chechênia. Poucos - à parte intelectuais urbanos - também se importaram com o passado de Putin na KGB: os russos reconhecem que a KGB recrutou as figuras mais inteligentes, competentes e cosmopolitas de sua geração.
Uma verdadeira democracia, no entanto, só funciona com uma forte classe média e instituições civis - elementos que a Rússia definitivamente não herdou da URSS. Democratas na Rússia ainda agonizam em torno de uma questão-chave: o país pode ter fracassado no pós-guerra fria em boa parte porque é uma democracia, e a China pode ter dado certo, ao menos em economia, porque é uma ditadura.
Putin vai herdar uma fenomenal concentração de poder originária da Constituição de 1993 - "ditada" sob medida por Yeltsin. Putin - como Yeltsin - será imune a processos e poderá praticamente governar por decreto. Pode nomear e demitir o primeiro-ministro, convocar eleições parlamentares, formar e dirigir o Conselho de Segurança (que aprova operações militares), decretar lei marcial e apontar ou demitir o comandante das Forças Armadas.
Para Viktor Linnik, ex-correspondente em Washington e editor do jornal Slovo, a Rússia precisa de mais lei e ordem, depois da democracia anárquica da era Yeltsin. Há alguma ambivalênca entre os intelectuais urbanos: frisam que de 1990 a 1996 Putin foi vice- prefeito de São Petersburgo - um dos governos regionais mais mais corruptos. Mas se a maioria dos russos não ergue sobrancelhas com os métodos de "Putin-de-Ferro" - acusados de stalinistas na Chechênia - , para o resto do planeta a ameaça das máfias e potenciais terroristas nucleares passou a ser muito maior do que os tanques e a infantaria do ex-todo-poderoso Exército Vermelho, reduzido a pouco mais de 1 milhão de membros (eram 5 milhões durante a URSS).

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