Punks sem-teto acampam com sem-terra
Dimitri do Valle
Doze integrantes do movimento punk estão vivendo no acampamento que o MST montou em frente ao Palácio Iguaçu. Eles procuraram abrigo no local na noite de terça-feira, algumas horas depois de os trabalhadores rurais sem-terra chegarem a Curitiba para protestar contra o governo do Estado.
Como qualquer acampado, os punks passam o dia participando de atividades nos grupos de educação, saúde, segurança e de alimentação formados para organizar o funcionamento do acampamento. Todos eles haviam sido despejados pela polícia de um casarão abandonado no bairro Bigorrilho 11 dias atrás.
Antes de se juntar aos sem-terra, os punks tentaram morar em outra residência, mas foram novamente expulsos por policiais. Diante do problema da falta de teto, o grupo encontrou no acampamento uma alternativa de moradia e pôde conhecer de perto como é a vida dos trabalhadores rurais ligados ao MST.
No começo, os agricultores ficaram espantados com aquela gente que se vestia diferente, tinha cabelo verde e ostentava piercings nos lábios e nariz. Foi apenas o primeiro impacto. Logo os punks foram presenteados com bonés do MST e se dispuseram a ajudar nas tarefas do acampamento.
Eles (sem-terra) têm muito direito de estar aqui. A reforma agrária não deveria ser feita pela Secretaria da Segurança Pública, mas pelo Incra, comentou a integrante do movimento punk Maíra Gomes, 20 anos, referindo-se às cerca de 650 famílias que foram desalojadas de 14 fazendas na região Noroeste do Paraná.
Nos protestos promovidos pelo MST em Curitiba, os punks normalmente foram solidários com as reivindicações e denúncias dos sem-terra. A única divergência entre integrantes dos dois movimentos está na política. Entretanto, isso parece não atrapalhar a convivência no acampamento: A nossa diferença em relação aos sem-terra é essa questão do nacionalismo, de bandeira e país. A gente, que é anarquista, discorda um pouco disso, mas essa divergência não é problema num ambiente democrático, comenta Maíra, enquanto ajuda a amiga Jaciani Andrade, 17 anos, na preparação da mandioca que será servida no jantar.
Interesse A coordenação do movimento informou que, assim como os punks, dezenas de pessoas da periferia de Curitiba têm procurado o MST para se juntar ao acampamento. Esta possibilidade ainda está sendo estudada, informou o coordenador estadual, Roberto Baggio.
Um cadastramento será iniciado esta semana para relacionar famílias interessadas em retornar ao interior do Estado. Baggio disse que as famílias que deixaram a agricultura para tentar a sorte na capital e encontraram a pobreza têm condições de conseguir vagas nos acampamentos do MST.
O MST recebeu ontem cerca de duas toneladas de roupas arrecadadas por uma paróquia de Joinville (SC) para os acampados no Centro Cívico. Eles também ganharam dos catarinenses 45 carteiras escolares.
O plano é montar, entre o térreo e o segundo andar das obras abandonadas do futuro Fórum, um centro educacional para crianças e adultos. Como a estrutura de concreto do prédio de 10 andares não dispõe de paredes, os sem-terra planejam erguer parapeitos de bambus para evitar eventuais quedas.Grupo que vivia no bairro Bigorrilho foi expulso duas vezes pela PM e encontrou abrigo no acampamento em frente ao Palácio
Albari RosaEstranhos no ninhoPunks encontraram no acampamento uma opção de moradia: diferenças superadas e convivência pacífica





