Pundek diz que Niko Securities pressionou por venda de dólares
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Liliana Enriqueta Lavoratti e Ribamar Oliveira 
Brasília, 29 (AE) - O principal assessor do ex-presidente do Banco Central (BC), Francisco Lopes, durante os cerca de três anos em que foi diretor de Política Monetária, economista Alexandre Pundek Rocha, afirmou hoje na Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Financeiro que a instituição foi pressionada pela Niko Securities para vender dólares subsidiados ao Banco Marka e seu Fundo Marka-Niko.
Pundek também acumulou a função de secretário-executivo do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, fórum responsável pela fixação dos juros básicos da economia.
Durante seu depoimento de quase quatro horas no Senado, o consultor da Diretoria de Política Monetária do BC - cargo onde permanece até hoje - reiterou várias vezes que foi um "mero interlocutor" nas negociações entre a instituição oficial e o presidente do Marka, Salvatore Cacciola.
Pundek disse que dois representantes da Niko Securities tentaram chantagear o BC para baixar a R$ 1,32 a cotação do dólar na operação de socorro, no lugar dos R$ 1,56 propostos pelo BC e mantidos posteriormente.
"Os dois representantes da Niko Securities que foram ao BC no dia 19 de janeiro, depois que a operação já estava fechada, alegaram inclusive que o jornalista Clóvis Rossi tinha conhecimento da venda de dólares ao Banco FonteCindam a R$ 1,32 e que estava pedindo informações sobre o tratamento diferenciado em relação à cotação dada ao FonteCindam", afirmou Pundek.
A Niko Securities se associou ao Marka para implantar o Fundo Marka-Niko, cujos passivos Cacciola queria incluir na operação de salvamento realizada pelo BC.
O "braço direito" de Francisco Lopes na Diretoria de Política Monetária também confirmou que a Bolsa de Mercadorias e Futuros encaminhou à direção do BC uma carta recomendando a ajuda ao Marka e ao FonteCindam, alertando para as dificuldades enfrentadas naquele momento pelos dois bancos em consequência da desvalorização cambial.
Os senadores não conseguiram arrancar de Pundek se a recomendação da Bolsa ocorreu antes ou depois do dia 14, quando o BC decidiu vender dólares ao Marka abaixo da cotação à vista para que o banco pudesse zerar seus ativos e passivos.
Pundek disse que foi portador do bilhete que Cacciola mandou entregar a Lopes no dia 13, quando o presidente do Marka esteve no BC pedindo ajuda. "Lopes passou os olhos no bilhete, comentou que se tratava de um problema para a área técnica analisar e que não ia interferir", contou o principal assessor do ex-presidente do BC.
Segundo ele, o assunto foi passado ao diretor de Fiscalização, Cláudio Mauch, que orientou a Delegacia Regional do Rio de Janeiro a levantar a situação financeira do Marka. No dia 14, já com um relatório feito pela chefia interina de Fiscalização indicando o montante do socorro, a Diretoria do BC decidiu por assumir os contratos do Marka na Bolsa.
A pedido do senador Pedro Simon (PMDB-RS), a CPI poderá incorporar ao relatório final a recomendação ao Ministério Público Federal para encaminhar os procedimentos judiciais cabíveis para que a Bolsa de Mercadorias e Futuros devolva ao BC o prejuízo estimado em R$ 1,4 bilhão com a ajuda aos bancos Marka e FonteCindam e aos seus fundos.
Para viabilizar o ressarcimento, Simon pede que a Justiça execute as garantias dadas nesse tipo de operação, que envolvem as corretoras, a própria Bolsa e um pool de bancos.
O sócio de Lopes na empresa de consultoria Macrométrica, Sérgio Bragança, que depôs hoje à noite na CPI, invocou o direito de silêncio obtido por um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal para não responder aos senadores quando questionado sobre os US$ 1,6 milhão que guarda em suas contas pessoais em bancos no exterior para o ex-presidente do BC.
Bragança disse que quando Lopes aceitou o cargo de diretor de Política Monetária do BC, em janeiro de 1995, apenas comunicou a ele sua decisão de se desligar da Macrométrica porque estava assumindo um posto público. Ainda de acordo com Bragança, depois que se tornou funcionário do BC, Lopes não costumava ir à sede da Macrométrica, no Rio de Janeiro.
"Era um evento raro, mas quando ele ia, ia às sextas-feiras"
afirmou Bragança. Durante o tempo que permaneceu no BC, Lopes tinha o hábito de viajar ao Rio de Janeiro às quintas-feiras à noite para passar o final de semana com a família e despachava na sede do BC no Rio.
Bragança disse ainda que nos últimos dias falou com Lopes apenas uma vez e que teve um único contato com ele quando foi demitido do BC. "Lopes fez uma visita na Macrotmétrica e almoçou com os amigos na Churrascaria Porcão", disse.


