Brasília, 07 (AE) - O PTB deixou de ser um partido da base aliada ao governo e passou a radicalizar a posição de independência dos 23 deputados trabalhistas na Câmara. O principal motivo da nova postura do partido foi a inesperada saída do ministro Paulo Paiva da pasta de Orçamento e Gestão, sem um aviso prévio. A notícia acabou pegando as principais lideranças do PTB de surpresa, que ficaram sabendo do fato apenas pelos jornais. Por causa disso, o partido deverá tirar uma posição formal sobre o assunto na convenção que será realizada no dia 14 para eleger a nova executiva nacional.
"Não sei qual o objetivo do presidente Fernando Henrique Cardoso em querer esvaziar o partido", dispara o presidente nacional do PTB, o ex-senador e ex-ministro da Agricultura José Eduardo Andrade Vieira (PR). Paiva era o único ministro do PTB no primeiro escalão, o que amarrava o partido ao governo. "Acho que já deveríamos ter tomado essa posição de independência a mais tempo", completou Vieira, lembrando que, em 1998, Fernando Henrique fez o mesmo, ao demitir, pela imprensa, o então ministro da Agricultura, senador Arlindo Porto (PTB-MG), época em que o partido tinha também o Ministério do Trabalho.
O posicionamento de Vieira ganhou força na bancada do partido na Câmara. "O fato de o presidente Fernando Henrique Cardoso estar substituindo o ministro do PTB sem nenhuma atitude de consideração, já que sequer conversou com a bancada sobre o assunto, nos deixa muito mais à votade para tomarmos essa posição ", avisa o ex-governador e deputado Luiz Antônio Fleury Filho (SP). Os caciques do partido ressentem-se com o que consideram ingratidão do presidente, lembrando que o PTB apóia Fernando Henrique desde a primeira candidatura, em 1994, respaldo que - mantido na campanha passada - evitou o crescimento da candidatura do ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes (PPS).
O que mais aborreceu os parlamentares do partido é que, na quinta-feira (04), eles estiveram com Fernando Henrique no Palácio da Alvorada, mas, em nenhum momento, o tucano tratou do assunto. "Com isso, ficamos sem nenhum débito com o presidente e, cada vez que votarmos com o governo, será ele que ficará devendo um débito conosco", acrescentou Fleury Filho. Até o líder do PTB na Câmara, Roberto Jefferson (RJ), foi apanhado de surpresa pela saída de Paiva. "Agora, vamos intensificar o nosso posicionamento de independência", garantiu.
O líder do PTB lembra que, na reunião que a bancada partido teve com o presidente na quinta-feira, ele havia posicionado-se sobre o assunto. "Não queremos cargos do governo", observou Jefferson. Em compensação, o governo começa a perder apoio em matérias de interesse no Congresso. O PTB fechou questão num ponto: não votará novos impostos antes da reforma tributária. A bancada não irá assinar o proposta de emenda constitucional (PEC) que estabelece o Imposto Seletivo sobre os Combustíveis. Em relação à votação do aumento da alíquota da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), o partido irá apresentar no plenário um destaque para manter a alíquota em 0,20%.
Mesmo assim, ainda há um grupo minoritário dentro do partido que irá brigar para manter o espaço no governo. Alguns parlamentares do PTB querem recuperar o Ministério da Agricultura, que poderia ir para o deputado ruralista Nelson Marquezelli (SP). Também há quem defenda a manutenção do Ministério de Orçamento e Gestão nas mãos do PTB mineiro.
Nesse caso, a pasta seria ocupada pelo deputado Walfrido Mares Guia. Dentro do governo, essa hipótese está praticamente descartada, uma vez que Guia é um dos principais adversários do governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), o que complicaria ainda mais a relação do Estado com a União. Paiva ocupará o cargo de vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

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