Rio, 15 (AE) - A executiva regional do PT do Rio está investigando a criação, nos últimos seis meses, de 80 novos núcleos de militantes, possivelmente da tendência Articulação, visando aos encontros que elegerão novos dirigentes a partir de agosto. O presidente regional do partido, Domício Mascarenhas, discutiu o assunto hoje com o presidente nacional, José Dirceu (SP), mas, apesar das suspeitas de fraude, foi avisado de que a direção nacional não interferirá.
Petistas de outros grupos temem o inchamento da legenda, com auxílio do governo estadual, com pessoas estranhas ao PT, para ter maioria nas direções em 2000, ano eleitoral. "É uma coincidência que esse crescimento se dê no momento em que o PT governa", ironizou o deputado Chico Alencar, do grupo Refazendo
da esquerda partidária, e que quer ser candidato a prefeito em 2000. "Outro dia, estive em uma reunião ampliada do diretório municipal, em que a maioria dos representantes de núcleos era formada por gente que eu nunca tinha visto no PT." No ano passado, o PT do Rio sofreu uma intervenção por parte da direção nacional, que cassou a candidatura de Vladimir Palmeira a governador e decretou o apoio a Anthony Garotinho (PDT).
Mascarenhas, ligado ao grupo do deputado Carlos Santana, não deu muitos detalhes sobre o encontro, mas confirmou que discutiu a questão com Dirceu. "Estamos procurando que esse processo de filiação seja o mais transparente possível, para que o partido realize suas convenções com tranquilidade", disse ele. Segundo apurou a reportagem, uma das possibilidades em exame pela cúpula regional é a realização de encontros por zona eleitoral e não por núcleo, para dificultar possíveis fraudes e facilitar a fiscalização do processo de eleição de delegados ao encontro municipal.
O crescimento do PT carioca começou em dezembro do ano passado. Um dos fatos que chamaram a atenção foi a "explosão" de petismo na zona oeste, onde, em três semanas, surgiram 20 novos núcleos. Um dos temores dos petistas que combatem a Articulação é que possa ser usada a estrutura de assistência social do governo estadual, sob controle da vice-governadora Benedita da Silva, também pré-candidata a prefeita, para alavancar os novos núcleos. Outro medo é que, às vésperas do prazo final para filiação (7 de julho), haja uma enxurrada de novas filiações.
Dirceu disse hoje desconhecer o problema e que o diretório nacional só interfere nesse tipo de questão em grau de recurso -antes, ela deve ser discutida nas direções municipais e estaduais. Ele afirmou que esteve no Rio hoje não para discutir esse assunto, mas para conversar com secretários e subsecretários petistas sobre sua participação no governo estadual e a conjuntura nacional. "Não tem sentido eu vir aqui tratar de filiação."
Benedita afirmou ter tomado conhecimento da polêmica "pelos jornais", mas o secretário de Planejamento, Jorge Bittar, também da Articulação, confirmou que está havendo um processo de crescimento do partido, com filiações feitas por petistas de todas as tendências. "Tem uma turma do PT preocupada com nosso esforço para fazer novas filiações, mas eles também estão fazendo", afirmou. "É uma guerrinha natural, se houver algum problema, que seja investigado." Bittar queixou-se da direção regional do PT, que, afirmou, em sua maioria ignora que o partido é governo.

mockup