PT também defende reajuste, mas governadores temem impacto
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terça-feira, 16 de março de 1999
Por Claudia Carneiro 
Brasília, 17 (AE) - Depois do PMDB, hoje foi a vez de o PT anunciar que vai às ruas defender reposição salarial imediata por conta da inflação. Mas não há consenso no partido sobre o assunto. Em encontro com os governadores do partido, o presidente de honra, Luiz Inácio Lula da Silva, pregou a volta do gatilho salarial, enquanto o presidente do partido, deputado José Dirceu (SP), descartou campanha pela reindexação e os governadores petistas advertiram não suportar um reajuste do salário mínimo nos Estados.
Os governadores admitiram que, inicialmente, não têm como pagar aumento salarial, porque estão legalmente impedidos: os gastos de seus Estados com folha de pessoal superam o limite de 60% da receita, imposto pela Lei Camata, além de estarem proibidos de dar aumento salarial por cláusulas expressas nos contratos de repactuação das dívidas. O governador de Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos (Zeca do PT), admitiu que um reajuste do salário mínimo necessariamente levaria a uma nova pauta de negociações entre governo federal e estaduais, paralela à atual agenda que discute as dívidas.
"Como vamos dar aumento se estamos acima do limite?", questionou Zeca do PT, alegando que no momento a maior preocupação do governo de Mato Grosso do Sul e dos próprios funcionários é acertar as folhas salariais de novembro, dezembro e do 13º que até hoje não foram pagas. "Para pagar, precisamos de dinheiro novo e, portanto, de negociação com o governo federal", disse ele.
Os governadores petistas defendem a mudança do modelo econômico como saída para resolver a questão salarial, mas admitem também que, se os preços continuarem subindo, os governos terão de encontrar uma fómula de melhorar os salários dos trabalhadores. "A política econômica está trabalhando hoje com uma projeção de 15% para a inflação e isso é intolerável para nós", afirmou o governador do Acre, Jorge Viana.
Lula defendeu a adoção do gatilho salarial para ressarcir as perdas causadas pela inflação. "Eu sou a favor do gatilho, sou a favor de que os trabalhadores brasileiros não sejam vitimados outra vez pela incompetência do governo e de sua política econômica", afirmou Lula. O gatilho, continuou ele, é uma necessidade urgente para se recuperar o poder aquisitivo de uma parcela grande da população brasileira.
"Os trabalhadores já fizeram todo sacrifício necessário, alguns ficaram quatro anos sem reajuste com o argumento de que era preciso manter a estabiliidade do real e agora o gatilho é um resultado da inflação, porque o governo não está controlando a inflação como poderia, através dos preços e evitando a especulação financeira", completou Lula. "Nós não abrimos mão de termos uma proteção aos salários", emendou o líder do PT na Câmara, deputado José Genoíno (SP), que defende uma discussão no âmbito do Congresso, mas com a participação necessária de empresários e trabalhadores.
Na pauta das oposições estão previstas manifestações em todo País a partir da próxima semana. No próximo dia 26, a oposição realiza nas várias capitais o Dia Nacional de Luta contra a política econômica do governo. No dia 21 de abril, o governador mineiro Itamar Franco terá a presença dos governadores e dirigentes do PT na cidade de Ouro Preto, numa manifestação pela soberania nacional. E no dia 1º de maio a oposição vai promover manifestações em todo País pela recuperação salarial.
O presidente nacional do PT negou que o partido esteja defendendo a reindexação. "É evidente que ninguém quer a reindexação da economia, porque ela acabaria voltando-se contra o assalariado", disse José Dirceu. O deputado justifica que não quer a reindexação, mas a reposição imediata das perdas salariais consequentes da desvalorização do câmbio.


