PT rejeita em congresso o "Fora FHC"
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sábado, 27 de novembro de 1999
por Vera Rosa e Wilson Tosta, enviados especiais 
Belo Horizonte, 27 (AE) - Os moderados do PT venceram a disputa com os radicais e rejeitaram hoje, por ampla maioria, a proposta de adoção, pelo partido, do slogan "Fora FHC" - pregação do impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso e antecipação da eleição de 2002.
A decisão, tomada no plenário do 2º Congresso Nacional do PT, em Belo Horizonte (MG),foi marcada por disputas de palavras de ordem entre tendências rivais. Logo após a votação, houve no palco um tumulto, envolvendo os petistas Jorge Almeida, Valter Pomar, Delúbio Soares e outros, que quase degenerou em briga e obrigou seguranças a intervir.
A votação antecipou em um dia a disputa, marcada para amanhã, entre os três candidatos à presidência do PT - os deputados José Dirceu, da Articulação, que concorre ao terceiro mandato; Milton Temer, apoiado pela esquerda, e Arlindo Chinaglia, do Movimento PT. Cada um dos candidatos fez a defesa de uma emenda diferente à tese-guia Programa da Revolução Democrática, que vai orientar os rumos do partido.
O texto aprovado foi resultado de uma negociação interna do próprio bloco liderado pela Articulação e estabelece que o partido assume o compromisso de continuar na "ofensiva política" contra o governo de Fernando Henrique, mas não menciona o slogan "Fora FHC". Estabelece ainda que o diretório nacional do PT "impulsionará a mobilização popular e, levando em conta as condições objetivas da conjuntura e das alianças do campo da oposição e da sociedade, definirá os próximos passos políticos e institucionais para derrotar FHC".
"Temos compromisso com a Constituição e a democracia", afirmou Dirceu. Ao defender a proposta, o presidente do PT pregou: "Não vamos fazer impeachment para que a coalizão conservadora depois hegemonize o governo." A resolução aprovada contemplou setores descontentes da ala moderada, ligados aos deputados federais Ricardo Berzoini, presidente do diretório paulistano, e João Paulo Cunha, que chegaram a ensaiar votar com a esquerda. Eles defenderam, nos encontros de base em São Paulo, o "Fora FHC". A emenda que resultou do acerto reconhece a legitimidade e autonomia das entidades do movimento popular e sindical para pedir o afastamento do presidente, mas não adota o lema para o PT.
Os votos do grupo de João Paulo e de Berzoini foram considerados necessários para dar a vitória ao chamado bloco majoritário, formado pelas correntes Articulação e Democracia Radical. Os dois acabaram aceitando o acordo, convencidos pelo presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.
"Criou-se aqui um acirramento absolutamente desnecessário", disse Lula. O embate em torno do "Fora FHC" acabou transformando o 2.º congresso do PT num encontro dominado por um único tema: a legalidade do mandato de Fernando Henrique. De um lado estavam as facções da esquerda, que apóiam a candidatura de Temer. De outro as tendências moderadas, defensoras da reeleição de Dirceu. No centro, correndo por fora, aparecia o Movimento PT, capitaneado pelo ex-prefeito de Porto Alegre (RS) Tarso Genro, que sustenta a candidatura de Chinaglia.
Diante do impasse, o plenário do congresso petista virou palco de mais palavras de ordem. "El, el, el, vocês querem Maciel", gritavam os moderados para os radicais, numa referência à posse do vice-presidente, Marco Maciel, em caso de impeachment do presidente. "É Itamar, é Garotinho, agora querem o Fernandinho", respondiam os xiitas, ironizando as alianças com os governadores de Minas, Itamar Franco (PMDB), e do Rio, Anthony Garotinho (PDT).
"Esse slogan foi usado nesse encontro para fazer luta interna, uma mesquinharia política", afirmou Dirceu. "É deseducativo para o País, no momento em que o PT quer formar uma coalizão para governar e debater um novo rumo, dizer que o problema do País é Fernando Henrique." Na outra trincheira, Milton Temer mostrava inconformismo com o discurso dos moderados. "Não se trata aqui de uma questão política, mas de psicanálise e de afirmação de ego porque transformaram isso num drama", dizia o deputado. Ao sustentar sua proposta, Temer foi irônico.
"Não era sobre este tema que eu queria discutir,eu queria falar sobre nosso projeto socialista e sobre que partido queremos para nos diferenciar", afirmou.
Chinaglia admitiu que o debate do tema monopolizou o congresso."Isso aconteceu mais pelas nossas divergências em outros temas do que pela avaliação que o PT faz do governo Fernando Henrique", disse. No fim da plenária, uns jogavam a culpa nos outros pelas excessivas horas dedicadas à discussão de um slogan. "Foi uma perda de tempo lamentável", protestou o deputado João Paulo. "É inacreditável que, no fim do século 20, quando deveríamos estar discutindo problemas do Brasil e o que o PT vai fazer, o debate fique engessado numa palavra de ordem." O governador do Acre, Jorge Viana, concordou com João Paulo.
"O PT precisa gastar mais energia com propostas alternativas e um projeto para o Brasil", argumentou. Para o prefeito de Porto Alegre (RS), Raul Pont, a discussão que predominou no congresso do PT foi "completamente desfocada". Um dos líderes da tendência de esquerda Democracia Socialista, Pont considerou que o encontro do PT perdeu uma grande oportunidade de afinar o discurso em torno de temas fundamentais
como estratégias e desafios do partido. "Estamos vivendo um problema: a direção falseia o debate, talvez para esconder o outro, sobre o socialismo que defendemos."


