Brasília, 10 (AE) - Defensor histórico do reajuste do salário mínimo, o PT ironizou a manobra eleitoreira do PFL, que está propondo um mínimo de US$ 100 (o equivalente a R$ 180,00). "Pela primeira vez na história, vejo uma sensibilidade social do PFL, mostrando até um cheque assinado pelo presidente da República com a garantia do aumento", disse o líder do partido na Câmara, deputado Aloizio Mercadante, em discurso no plenário, referindo-se ao cartaz da campanha do PFL. "Só espero que, futuramente, não descubram que esse cheque é sem fundos." O deputado convidou o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), e a cúpula do partido a participarem das mobilizações que serão organizadas pelos partidos de oposição no dia 1º de maio, Dia do Trabalhador.
"Quero parabenizar o PFL, com a certeza de que não voltarão atrás, não recuarão dessa bandeira e não se desviarão dessa propositura, uma inovação e um avanço importante para a democracia e a história do Brasil", provocou o líder do PT. Todos os anos, o PT lidera a pressão pelo aumento do salário mínimo e tem no deputado Paulo Paim (PT-DF) o principal interlocutor para este assunto, porém nunca teve o apoio da bancada governista.
Parlamentares governistas também reagiram à proposta do PFL. O líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP), declarou que deve ter havido algum equívoco. "O PFL não pode estar propondo dolarizar o mínimo, isso é impossível", disse. Para Madeira, a equiparação a um valor em dólares não é a usual. "A equipe econômica trabalha com o valor da cesta básica para determinar o mínimo, e isso não vai mudar", avisou.
Fontes do governo comentavam hoje que a nova bandeira pefelista não foi bem aceita no Palácio do Planalto. "É um debate antecipado que só desgasta o partido e vai causar mal-estar na hora em que o governo tiver de anunciar o novo mínimo, em maio", afirmou a fonte. Houve quem qualificasse a ação pefelista como teatro. "Um factóide em ano eleitoral", vaticinou outra fonte governista. "Cem é até um número redondo, meio cabalístico, bom para propaganda política", comentou.
Sorrisos - Enquanto o líder do PFL posava sorridente abraçado a Mercadante, o presidente nacional do partido, senador Jorge Bornhausen (SC), fazia circular no Congresso uma nota oficial esclarecendo que a proposta de um salário mínimo de U$ 100 foi apenas uma sugestão e não uma bandeira a ser hasteada pelos pefelistas. "O PFL, com responsabilidade, está consciente das repercussões desse ajuste - principalmente das contas da Previdência Social, dos governos estaduais e das prefeituras - por isso aguardará o estudo final de uma comissão sobre o assunto" diz a nota.
O recuo do partido foi imposto pela reação de seus governadores e prefeitos, além do próprio ministro da Previdência, Waldeck Ornélas. Pefelistas que comandam governo e têm cargo no Executivo acharam a proposta descabida e lembraram o forte impacto que a adoção do mínimo de US$ 100 teria sobre as contas públicas. Inocêncio Oliveira evitou sustentar a defesa do valor, mas reafirmou que o partido vai estudar a questão.
O presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), entretanto, manteve seu atual discurso em defesa de um salário básico mais alto. "Sei que tem setores no PFL que não defendem o valor, mas U$ 70 não é um salário mínimo digno no Brasil", disse, frisando que o partido defende aumento do salário mínimo, mas não tem interesse em criar dificuldades para o governo federal.
Aproveitando a carona, o líder do PSB na Câmara, deputado Alexandre Cardoso (RJ), afirmou que, na próxima semana, vai colher assinaturas para levar a proposta pefelista direto ao plenário, sem passar por comissões. "Toda a oposição vai apoiar a iniciativa do PFL, há muito tempo defendida por nós", disse. "Mas esperamos que a primeira assinatura seja do líder do PFL." O presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), criou uma comissão para estudar o mínimo na semana passada. Só falta os líderes dos partidos representados na Câmara indicarem os membros.

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