PT e PDT têm resultados diferentes com fim de coligação no Rio
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domingo, 23 de abril de 2000
Por Wilson Tosta 
Rio, 24 (AE) - Encerrado após dois anos de uma coligação tumultuada, o "casamento" do PDT com o PT legou às duas legendas espólios políticos desiguais. Enquanto o PDT, que antes da aliança estava em decadência, voltou com força à administração, o PT, que até 1996 vinha em trajetória ascendente
mas irregular, perdeu o poder que conquistara e teve suas divergências acirradas. Os pedetistas separaram-se dos petistas após uma união que melhorou o desempenho do brizolismo em 1998 na capital, onde Cesar Maia (então no PFL) era mais forte.
"O PDT (com a saída do PT e a volta ao Estado) tem uma oportunidade de ouro para recuperar sua credibilidade", diz o cientista político Geraldo Tadeu Moreira Monteiro, coordenador do Programa de Estudos Políticos do Núcleo de Estudos Governamentais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Nuseg-Uerj). Ele refere-se ao aumento da presença pedetista na administração, que se seguiu à saída petista e foi acertada pelo governador Anthony Garotinho com o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola.
No lado petista, o saldo é de rachas que, agora, atingem internamente os grupos: a Articulação e outras tendências estão divididos.
Números - As trajetórias virtualmente inversas seguidas por PDT e PT no Rio (computadas as eleições para prefeito da capital e para governador do Estado) estão nos números da Justiça Eleitoral. O PDT teve, em 1985, 39,26% dos votos; em 1986, 35 9%; em 1988, 41,8%; em 1990, 61%; em 1992, 18,43%; em 1994, 30 4%; e em 1996, 8,6%. O PT, nos mesmos pleitos, foi diferente: 0 98%, 8,6%, 23,1%, 17,8%, 33,29%, 10,7% e 21,7%. A série foi quebrada em 1998, quando o PDT, coligado com o PT, lançou o mesmo candidato a governador que em 1994 (Anthony Garotinho), mas teve votação maior: 46,86%.
"Em 1998, argumentamos muito com a direção nacional que o PDT era uma legenda em extinção, era o momento de tentarmos superar o brizolismo, mas a coligação lhe deu gás", diz o dirigente petista Antônio Neiva, um dos coordenadores do Refazendo, grupo que congrega a esquerda petista fluminense. Ele não acredita, porém, que os pedetistas tenham pensado desde o início em usar, como estratégia para se reerguer, a coligação com o PT. "A intervenção saiu por vontade da direção nacional do PT, os pedetistas só tiraram proveito de uma situação."
Mesmo a popularidade de Garotinho, uma das justificativas da direção do PT para intervir no Rio em 1998 e cassar a candidatura de Vladimir Palmeira a governador, se revelou inútil para as pretensões de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial. Lula teve no Estado 2.851.274 votos, só 2.997 a mais que Fernando Henrique Cardoso.
Garotinho, no primeiro turno, teve 3.083.441 votos, 232.167 além do petista. Não houve a esperada transferência de votos.
Ao fracasso, do ponto de vista da reforço da votação para a chapa nacional, da coligação no Rio, seguiram-se quase 16 meses de um governo marcado por conflitos entre o PT e o governador, que chegaram ao ápice com a resolução dos petistas de 2 de abril passado. Na ocasião, o partido decidiu "sair politicamente" do governo, mas ficar nos cargos.
O tamanho do estrago na imagem da legenda foi medido, na capital, em 1.150 entrevistas, feitas nos dias 4 e 5 de abril, pelo Nuseg-Uerj. Segundo a sondagem, diante da pergunta sobre o que achavam da atitude petista, 21% dos entrevistados disseram que era errado o PT criticar e ficar no governo; 14%, que o governador já deveria ter demitido os petistas; 13%, que o PT já deveria ter saído; e apenas 15% responderam que o partido estava certo ao esperar uma resposta do governador a suas reivindicações, antes de sair. Outros 28% não responderam. Computadas apenas as respostas de quem opinou, só um em cada quatro consultados (24%) disse aprovar a atitude do PT.
"Repercutiu muito mal, passou a imagem de um partido inconsistente, sem rumo definido", diz Monteiro. "O ruim foram as vacilações, era a segunda ou terceira vez que o partido ameaçava sair." Outro cientista político, Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj) também vê prejuízos para a imagem petista. "O PT está no limbo." Neiva identifica na relação com o governador vários "episódios de humilhação do PT", como o uso por Garotinho das expressões "Partido da Boquinha", pelo suposto apetite petista por cargos, e "Desmentindo", pela presumida iniciativa do partido de denunciar ilegalidades e voltar atrás depois. "O PT sai da coligação com sua base eleitoral perplexa", diz ele. "De 1986 para cá, vínhamos crescendo entre os formadores de opinião." Ele declara que o que os petistas chamam de "Grande PT", campo político que abrange PSB e PC do B, votava, no Rio, de forma marcadamente antibrizolista, mas isso se quebrou na aliança de 1998.
"O PT perdeu o momento de sair do governo: no episódio da boquinha (outubro de 1999) e na demissão de Luiz Eduardo Soares (em março de 2000) da Coordenadoria de Segurança", afirma.
O vice-presidente do PT da capital, William Campos, tem avaliação diferente. Ele diz que o PT acertou no início, ao se coligar ao PDT. "Derrotamos Cesar Maia, fizemos a coalizão, evitamos revidar as ofensas do governador e mostramos que um ser humano não pode ser humilhado", diz. "Se não saíssemos, ia ter mais da metade do partido contra a Benedita (da Silva, vice-governadora e candidata a prefeita, ligada à Articulação)." Campos diz que Lula queria a aliança de 1998 por achar que, se vencesse a disputa, não conseguiria governar sem o apoio de um número expressivo de governadores.
Campos afirma que a Articulação saiu vitoriosa, mas reconhece que o grupo está dividido. "O PT voltou a ser rebelde e deixou de ser revoltado", diz. O dirigente reconhece que o grupo rachou: alguns mais próximos de Benedita insistiram na permanência no governo, mas a maioria ficou a favor da saída. "Para a Benedita, (sair) foi uma decisão trágica, mas o tempo vai mostrar quem estava certo", declara.
O dirigente conta que a vice-governadora "resistiu até o fim" a sair, mas afirma ter plena certeza de que Benedita ainda vai agradecer ao setor da tendência que bancou a saída. "A imagem que a sociedade vai ter ficou muito ligada ao ato de sair
saímos honradamente", diz. Ele admite que as relações de Benedita com a Articulação estão estremecidas. "Estou disposto a deixar meu cargo à disposição da tendência", diz ele. "Aliás
estou deixando." A vice-governadora já reafirmou que não queria mesmo que o PT saísse da administração e disse que pretendia procurar Brizola para pedir apoio e reatar a coligação rompida. O pedetista já disse que não há possibilidade apoiá-la. "Enquanto há vida, há esperança", afirmou ela, referindo-se à sua intenção de recompor a aliança de esquerda que implodiu oficialmente.
PDT - O líder do PDT na Câmara, deputado Miro Teixeira, prefere não opinar na polêmica sobre quem ganha e quem perde politicamente com o fim da aliança. "Não me bota nesta encrenca", ri. Ele acha, porém, que é incorreta a avaliação de que o PDT, em consequência da crise e da saída do PT, aumentou sua presença no governo estadual. "O novo secretário de Justiça (João Pinaud) é filiado ao PSB", diz ele. "O Tito Ryff já era secretário (de Desenvolvimento Econômico), só acumulou (o setor de Planejamento), a inovação é o (Luiz Alfredo) Salomão (novo secretário de Transportes)." Para Teixeira, a direção seguida até agora pelas mudanças é positiva.
"O desdobramento das políticas públicas (a serem seguidas por Garotinho) é que vai mostrar se estamos no caminho certo", ressalta. Antes de nomear os novos secretários, porém, Garotinho submeteu seus nomes à cúpula pedetista, prova da nova influência do partido sobre o governo estadual. Já o governador acha que os petistas acabarão por fazer a sua autocrítica da saída do governo. "O PT vai ver que cometeu um equívoco", diz ele.


