PT do Rio decide entregar todos os cargos a Garotinho
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sábado, 23 de outubro de 1999
Por Wilson Tosta 
Rio, 24 (AE) - O PT fluminense decidiu hoje entregar ao governador Anthony Garotinho (PDT) todos os cargos que ocupa na administração estadual. Em votação marcada por polêmica, tumultos e ameaças de agressão, a proposta foi aprovada pela maioria dos delegados ao 18.º Encontro Estadual do partido no Rio. Ela é uma reação a declarações do governador que, na sexta-feira (22), chamou o PT de "partido da boquinha", por, supostamente, só estar interessado em cargos públicos, o que irritou os petistas e facilitou um acordo em torno da proposição
feito pelos grupos Refazendo, Campo de Ação Popular e Opção Popular.
Para tentar evitar a aprovação da proposta, a Articulação, tendência da vice-governadora Benedita da Silva, à qual são ligados os presidentes nacional, deputado José Dirceu (SP), e de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, retirou-se do plenário para derrubar o quórum. Feita a contagem, porém, constatou-se que havia 483 votantes -12 além dos 471 necessários para manter a votação. Em seguida, a proposta foi levada a voto por contraste: os delegados da Articulação não votaram, mas os das demais tendências, sim. Foi o início de um carnaval na sede do Clube dos Portuários, onde se realizava a reunião.
Na discussão da proposição, marcada por tumultos e pequenas brigas, os governistas criticaram o governador pelos excessos de linguagem, mas defenderam a permanência, em defesa do que consideram conquistas dos trabalhadores. "O PT tensiona o interior do governo", disse o secretário do Trabalho, Gilberto Palmares. Já o deputado federal Carlos Santana, líder do Opção Popular, bateu duro. "Hoje, ficar neste governo de forma submissa é ficar como rato, e ratos não somos!", berrou, sob aplausos.
Embora não ponha o partido na oposição (a "solidariedade" ao governo foi mantida), a decisão abriu mais uma crise no PT do Rio e tornou ainda mais complicada a situação de Benedita, que precisa de apoio interno para as pretensões de ser candidata a prefeita em 2000. "O PT é do governo não porque foi nomeado, mas porque foi eleito", disse. "A convenção não tem o direito de mandar as pessoas retirarem os votos que receberam." O secretário do Planejamento, Jorge Bittar, disse que não entregará o cargo e que a Articulação poderá recorrer ao diretório nacional.
"A decisão de fazer a aliança não foi tomada pela direção nacional?", perguntou. "Então, poderemos recorrer ao diretório ou ao Congresso do PT, em novembro." Palmares, após a votação, condenou o resultado, mas disse que se submeteria a ele. O secretário dos Transportes, Raul de Bonis, indicado por Santana, esteve no encontro para apoiar o que fosse decidido e não quis dar declarações (saiu antes da decisão), mas deverá entregar o posto amanhã (25). Já o secretário da Ação Social e marido de Benedita, Antônio Pitanga, não deverá entregar a secretaria. Ao todo, o PT detém 200 postos na administração.
"Alguns petistas só sairão dos cargos que ocupam com mandato de reintegração de posse e choque da PM", ironizou um dirigente do Campo de Ação Popular.
Um intenso trabalho de bastidores, iniciado ainda ontem, marcou a preparação da proposta vitoriosa. Inicialmente, Santana
cujo grupo ocupa posição de centro no PT fluminense, apresentou ao Refazendo, de esquerda, uma proposição de resolução que considerava acertada a idéia de apoiar Garotinho na eleição de 1998, mas, diante dos recentes ataques do governador, determinava a entrega dos cargos. O texto também estabelecia que os petistas que continuassem no governo Garotinho teriam suspensos os direitos partidários - não poderiam votar nem ser votados no PT nem poderiam se candidatar em eleições.
A proposição causou problemas na base de Santana. O parlamentar temia que alguns dos ocupantes dos cargos que controla e que eram delegados não acompanhassem a determinação. O deputado também queria que fosse dado ao diretório regional o poder para renegociar a volta ao governo. O Refazendo, que via o texto inicial com simpatia, mas não aceitava a possibilidade de volta ao governo, concordou em propor apenas a devolução dos cargos sem considerações políticas, punições e a possibilidade de recomposição com Garotinho. O apoio do Refazendo a Santana no segundo turno da votação para presidente regional foi condicionado a esse acordo.
"Agora, isso é coisa para a (direção) nacional resolver", disse um dirigente petista, pedindo anonimato. "Ao pé da letra do estatuto, quem ficar no governo poderia até ser expulso."


