Paris, 29 (AE) - O congresso do PT, em novembro, deverá examinar a candidatura do presidente de honra do partido, Luiz Inácio Lula da Silva, à Presidência da República nas eleições de 2002. O processo da sucessão presidencial ganhará, portanto, mais um candidato, além do ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes, que concorrerá pelo PPS. A revelação foi feita pelo próprio Lula
hoje, na França, onde deverá participar de um debate com o ministro da Cooperação francês, Charles Josselin, durante o Festival Cinematográfico e Cultural Latino-Americano, que se realiza em Biarritz. Em Paris, Lula foi recebido no Quai D Orsay
o Ministério do Exterior, pelo ministro Hubert Védrine e, amanhã (30), reúne-se com o primeiro-secretário do Partido Socialista (PS), François Holande.
Lula afirmou que o PT enfrentará dois desafios no momento de definir a candidatura. Do ponto de vista político, terá de fazer alianças com setores de centro-esquerda do partido
que não concordam com o governo. O segundo desafio é a necessidade de trabalhar junto aos excluídos da sociedade, levando em conta a dimensão da economia informal no Brasil.
Segundo Lula, o PT precisa construir um projeto que atenda aos interesses diferenciados da sociedade: "Não penso ser candidato só para provar que tenho 30% do eleitorado; ganhar dependerá da resposta a esses dois desafios." Lula disse que o Brasil vive um "momento inédito": "O presidente só cumpriu nove meses de mandato, mas só se fala no País na sucessão de 2002."
Indagado sobre o que via de similar entre os governos de FHC, no Brasil, e o de Lionel Jospin, na França - os dois têm formação de esquerda -, Lula aprofundou as críticas ao presidente brasileiro: "Jospin está provando que é possível fazer política sem estar subordinado ao neoliberalismo, mas esse não é o caso de Fernando Henrique; se existe algo similar na formação dos dois políticos, não existe nada similar em matéria de execução das políticas."
Lula revelou ainda que o partido é defensor ardoroso do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul), lembrando que a crise atual é menos do bloco econômico e muito mais do Brasil e Argentina. "Ambos acreditaram que o real e o peso valiam US$ 1 e hoje são obrigados a viver o malogro do modelo que adotaram."
Sobre o temor dos investidores estrangeiros de uma nova onda de nacionalizações ou de moratória da dívida externa - caso o PT vença a eleição presidencial -, Lula deixou claro que isso não está nas intenções do partido. A idéia seria manter privatizações feitas, mesmo não tendo concordado com as dos setores energético e de telecomuniações. Mexer no processo só se justificaria se alguma auditoria revelasse a existência de operações fraudulentas. Quando à dívida, o que se poderá fazer, segundo Lula, é uma "articulação junto aos países na mesma situação, buscando-se uma negociação com os credores para que sejam estabelecidas condições de prazo e pagamentos bem mais razoáveis do que as atuais".

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