São Paulo - Durante o sono, no silêncio e na penumbra do quarto, as imagens do inconsciente são projetadas na mente das pessoas. Na poltrona do cinema, com as luzes apagadas, o que está projetado na tela grande pode ser visto como o sonho de outro, mas traz situações, frases e momentos que tocam no inconsciente de quem assiste. Partindo dessa premissa, e dessa subjetiva ligação, uma modalidade chamada cinematerapia, que já se tornou bastante popular nos Estados Unidos, tema inclusive de várias pesquisas acadêmicas, começa a ganhar adeptos no Brasil.
A idéia é utilizar os filmes como um recurso a mais durante o trabalho terapêutico. Um tipo de lição de casa dada pelo psicólogo para o paciente que pode auxiliar a trazer à tona emoções escondidas e situações mal-resolvidas e até mesmo dar um empurrãozinho para ajudar a pessoa a ter um outro olhar sobre os próprios conflitos.
''A cinematerapia tem um poder educativo, pois amplia a percepção, aprofunda a compreensão, permitindo a elaboração de um pensamento crítico. O psicólogo seleciona um filme indicado para aquele caso, a pessoa assiste e depois discute com o terapeuta as semelhanças que percebeu entre seus próprios conflitos e angústias com a trama. Juntos vão aclarando o que estava nebuloso'', explica a psicóloga Maria Luiza Curti, uma das adeptas da prática no Brasil e autora da explicação que compara a projeção do inconsciente no sono com as cenas de um filme no cinema. ''Quando mergulhamos na arte, nosso inconsciente costuma ser despertado. Seja pintando um quadro, desenhando, esculpindo ou assistindo a um filme.''
A explicação desse poder da arte não é nova. Na Grécia Antiga, o filósofo Aristóteles registrou em sua obra ''Poética'' um processo que identificou nas tragédias. Foi ele quem chamou de catarse a descarga emocional que a experiência estética propicia, por exemplo, quando o espectador acompanha e sente como suas as aventuras e sofrimentos de um protagonista em uma peça.
No caso em questão, a peça foi substituída pelo filme. De acordo com a psicóloga americana Birgit Wolz, da Universidade John F. Kennedy, na Califórnia, e uma das pioneiras a sistematizar a técnica, os primeiros estudos sobre cinematerapia apareceram há cerca de dez anos. Ela lembra, no entanto, que contos, histórias e filmes há tempos são usados como recursos terapêuticos. ''Porém, agora a comunidade acadêmica começa a se interessar mais por eles, temos mais artigos, trabalhos publicados e cursos sendo oferecidos para os profissionais nos Estados Unidos.''

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