Para a maioria das doenças crônicas de pele, não basta apenas o tratamento com medicamentos. Atendimento psicológico ajuda a melhorar o quadro, principalmente no caso de crianças.
Mas o que doença de pele tem a ver com a psicologia? A psicóloga e professora Márcia Cristina Caserta Gon, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), já está acostumada com a pergunta, frequentemente feita pelos pais. Na UEL, ela idealizou um projeto que proporciona atendimento psicológico para crianças, com idade entre 7 e 12 anos, que possuem doenças como dermatite atópica, psoríase, vitiligo e alopecia (ver texto ao lado).
A psicóloga explica que a literatura médica aponta uma ''influência emocional'' no surgimento ou agravamento dessas doenças, que têm caráter imunológico e hereditário, mas não possuem causas definidas. ''Principalmente no caso de vitiligo, o modo como a criança se porta diante de situações de conflito pode desencadear a doença'', enfatiza Márcia Gon.
O tratamento psicológico pode, então, ''ensinar'' as crianças a lidar com essas situações de stress e conflitos, em parte causadas pela própria doença, através da auto-observação. ''A criança aprende a observar como reage em determinadas situações, se fica triste, nervosa, deprimida. Principalmente em situações que acontecem independente da nossa vontade, como a separação dos pais, ou a vinda de um irmão'', ressalta.
A relação entre a doença de pele e o lado psicológico, explica o dermatologista Airton dos Santos Gon, consultor do projeto, funciona como um ''ciclo vicioso''. A doença, por ser crônica, demandar um tratamento contínuo, que muitas vezes a criança não está preparada para enfrentar, e gerar uma grande preocupação da família, já causa situações estressantes.
Tanto stress pode desencadear maior manifestação da doença, e daí criar um ciclo vicioso de baixa qualidade de vida. ''Com o atendimento psicológico a criança aprende a lidar com a doença, e a família também, fazendo com que a doença não seja um peso'', ressalta Gon.
Mas o principal problema enfrentado pelos pequenos, e também causador de situações de conflito, é o preconceito das outras crianças.''Como a doença é visível, a discriminação acontece, e isso se manifesta em apelidos como 'dálmata', 'perebento' ou 'manchado'', relata Márcia. Mas com a terapia em grupo, e com crianças da mesma faixa etária, elas mesmas acham ''soluções'' para esses problemas. ''A primeira opção dos pais é falar 'deixa para lá, não liga', mas no grupo as crianças levantam outras alternativas'', conta.
Na família, é preciso ainda ficar atento para a superproteção - alerta a psicóloga - fato que também pode favorecer o preconceito. Com uma consequência grave, o isolamento social. ''Se a mãe, por exemplo, não deixa o filho calçar uma sandália, mesmo em um dia de muito calor, acaba ensinando ao filho que ele precisa se esconder'', exemplifica.
Como não há cura, Márcia ressalta, que o tratamento psicológico é complementar, mas uma forma de ficar ''melhor equilibrado emocionalmente''. ''Quando a família procura o atendimento psicológico, normalmente já passou por outros vários tipos de tratamento, desde os convencionais até os alternativos, e chega querendo 'a' solução. Mas o primeiro passo é a aceitação de que a criança é uma pessoa ativa no seu próprio tratamento, e que pode melhorar a situação. Saber que a doença pode diminuir, mas aparecer de novo, e estar preparada para lidar com isso já é um ganho'', finaliza.
Serviço: Informações sobre a Clínica Psicológica da UEL pelo telefone (43) 3371-4237

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