Psicanalista faz documentário sobre a cultura da violência
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terça-feira, 09 de julho de 2002
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
São Paulo - Miriam Chnaiderman armou sua câmera bem debaixo do Viaduto do Chá, naquele ponto em que os parentes das vítimas da violência praticada com armas de fogo levaram sapatos, chinelos, sandálias. Ela chegou cedo, por volta das 10 horas, e até as 11 horas só ouviu negativas. Ninguém queria dar seu depoimento para o documentário ''De Arma na Mão'', que ela começou a rodar ontem, no Vale do Anhangabaú.
''As pessoas têm medo de represália, de vingança'', avaliava Miriam, psicanalista e cineasta, premiada por seu trabalho como curta-metragista. Desta vez, faz um longa. Miriam começou seu trabalho recolhendo depoimentos de pessoas ligadas à polícia, ao Exército. A um major, um juiz corregedor que já foi PM e a líderes comunitários, ligados ao conselho de segurança dos bairros, Miriam perguntava qual era a sensação de estar com a arma na mão.
Ontem, aos parentes das vítimas pais e mães ultrajados, amigos enlutados, filhos revoltados , Miriam perguntava como é lidar com a dor da perda. Um cartaz resumia o espírito de indignação: ''Um ano é pouco para tanta saudade; é demais para tanta impunidade.''
As pessoas que, inicialmente, não queriam falar, terminaram se abrindo.
Aos 18 anos, lá pelo fim dos anos 60, Miriam viveu momentos de ansiedade, quando o pai, Boris Chnaiderman, teve de se exilar por causa da ditadura, e o irmão era procurado como guerrilheiro. Ela precisou vencer seu medo dos quartéis para fazer as entrevistas da primeira etapa da filmagem. Precisou vencer mais que isso: seu horror às armas. Ela admite que fazer o filme está sendo um sacrifício, mas acha necessário. Quer entender a cultura da violência. No carnaval, filmava ''Artesãos da Morte'', no Cemitério da Consolação, quando o marido e ela foram assaltados. Foi um trauma ver aquela arma encostada na cabeça do companheiro. O medo ela já sentiu. Filma, agora, para entender.


