Na psicanálise, não há a sugestão ou indicação de condutas ao paciente. Por isso, um analista nunca vai recomendar que o analisando assista a este ou àquele filme. O que não quer dizer que o cinema não ''ronde'' os consultórios. Na opinião do psicanalista Marcelo José de Castro, de Londrina, assim como a literatura, as artes plásticas ou qualquer forma de expressão cultural, artística ou científica, a psicanálise é um reflexo do seu tempo, da atualidade.
Castro explica que, mesmo não indicando filmes, não é difícil durante uma sessão, ele ou o paciente lembrarem de alguns e discutirem semelhanças e diferenças entre a situação real e a ficção. ''O próprio Freud era um apreciador do cinema'', lembra.
Bons filmes para isso não faltam. Castro cita ''Beleza Americana'', não só pelo drama da hipocrisia familiar, mas por retratar o consumismo excessivo, ''Asas do Desejo'', dos anjos que queriam desfrutar a humanidade, ''Lua de Fel'', que ilustra a perversão sexual, ''Closer'', que mostra a ausência de limites nos jogos de sedução. E muitos outros.
''Um filme pode ilustrar o drama pessoal do sujeito que está em análise. Como aliado, parceiro, o cinema pode ser usado sempre. Mas não se pode reduzir a terapia, que é algo muito mais complexo, a uma discussão de apreciação estética. A análise significa muito mais, significa a desconstrução da psiquê, da alma humana'', enfatiza.
O psicanalista ressalta que a literatura, as artes plásticas e, principalmente as tragédias gregas,''intuiam'' muito antes da psicanálise o inconsciente humano e seus dramas. ''Não é à toa que foi dado o nome de Complexo de Édipo à situação do garoto que com seus cinco, seis anos, fica enamorado da mãe, e com medo de castração pelo pai'', afirma.
Castro aponta como o lado negativo do cinema a banalização e infantilização de alguns temas. Ele critica principalmente os filmes ''hollywoodianos'', essencialmente comerciais, ''que provocam mais o sensorialismo imediato, a catarse, do que a reflexão''. ''Além da vertente maniqueísta, como se as pessoas fossem divididas em boas e más, como se a vida fosse um 'final feliz' sempre'', alerta.

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