O professor convidado de Economia Empresarial e Cenários Econômicos da Fundação Getúlio Vargas (Isae/FGV), Alivínio Almeida, explica que os preços das commodities são regidos por grandes compradores mundiais, como a China. Com isso, o mercado internacional é fortemente influenciado nos períodos em que estes gigantes estão repondo estoques para atender à demana interna.
Como os chineses consomem grandes volumes de soja, açúcar e carne brasileiros, muitos produtores passam a produzir apenas com o objetivo de exportar para o Oriente, reduzindo a oferta interna. Para Almeida, porém, este fenômeno não influencia na produção e no preço de outros produtos primários prioritários na mesa do brasileiro, como o arroz e o feijão. ''O que realmente regula estes produtos é o mercado interno aquecido.''
O professor avalia que as compras da China, assim como o Japão, devem continuar, com pequenas flutuações de volume. Internamente, Almeida prevê uma desaceleração no consumo - inclusive de alimentos - para meados de 2012. ''O mercado interno foi insuflado via crédito, dando início a um processo inflacionário que agora o governo tenta conter promovendo alta nos juros. O ano de 2012 deverá ser emblemático, pois o governo terá que se posicionar em relação aos rumos da economia do País'', argumenta Almeida.
O diretor de pesquisa do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Julio Suzuki, reforça que o efeito dos constantes aumentos das commodities é quase imediato nos preços internos. ''Há um impacto inflacionário para o nosso consumidor final.'' E como quem puxa os preços para cima são os países emergentes, principalmente a China que ainda tem um baixo consumo per capita de determinados produtos, a tendência é de alta contínua. ''Como há, nestes países, um contigente populacional ainda não agregado ao consumo, as perspectivas de crescimento do mercado são grandes.''
O economista do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e professor universitário Flávio Oliveira dos Santos concorda que a tendência de alta das commodities não será revertida tão cedo. O que preocupa, para ele, é que tal processo atinge com mais intensidade a classe de menor poder aquisitivo, que tem a alimentação baseada em produtos primários.
''Quando os preços das commodities sobem no mercado internacional, aumentam as vendas no mercado futuro e rapidamente é possível notar os reflexos nos preços dos alimentos, com impacto na cesta básica'', observa o economista. Ele cita como exemplo o açúcar, bastante valorizado no exterior e que, internamente, divide espaço com a produção de etanol, outro produto com demanda cada vez maior. De acordo com levantamento coordenado por Santos, nos últimos 12 meses o açúcar teve um aumento de 31,89% nas prateleiras dos supermercados de Londrina.
O açúcar só não pesou mais no bolso do consumidor que um outro item diretamente relacionado às commodities: o óleo de soja, que subiu 36,82%. Segundo Santos, que faz pesquisa mensal de preços da cesta básica em supermercados londrinenses há dez anos, o terceiro item campeão de aumento no início deste ano foi a margarina (31,26%), que também tem a soja como um dos principais componentes. Na sequência vêm a farinha de trigo (23,96%), carne bovina (20,86%) e café (20,36%), todos produtos de exportação. (S.L.)

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