Proximidade de eleições eleva tensão no Chile TATIANA BAUTZER, Enviada especial
Santigago, 30 (AE) O clima político no Chile está esquentando com a aproximação das eleições presidenciais. A pouco menos de dois meses do primeiro turno, com a diferença entre os dois principais candidatos diminuindo, a campanha começou a registrar ataques entre governo e oposição que envolveram o presidente chileno, Eduardo Frei.
As acusações de corrupção feitas por deputados oposicionistas fizeram o presidente Frei sair em defesa do governo num programa de rádio, e afirmar: "Não somos ladrões nem corruptos." No programa presidencial transmitido no domingo
Frei também atacou a direita, lembrando sua participação no regime militar.
As eleições presidenciais estão marcadas para o dia 12 de dezembro e, pelas pesquisas de opinião, está na frente o socialista Ricardo Lagos, candidato da coalizão governista, a Concertação. Mas a diferença de Lagos para o segundo colocado está diminuindo e não está certo que a eleição seja decidida em primeiro turno, como se esperava havia algumas semanas.
Se a vitória de Lagos for confirmada, será o segundo presidente socialista da história chilena, depois de Salvador Allende, derrubado pelo golpe militar de 1973. Desta vez, entretanto, o candidato socialista tem um perfil mais moderado, pela própria coalizão governista à qual pertence, formada pelo Partido Socialista (PS), Partido Democrata Cristão (PDC) e Partido Pela Democracia (PPD).
A Concertação dirige o país desde 1990, após o fim da ditadura militar, mas desde então só teve presidentes democrata-cristãos. Num artigo publicado no jornal El Mercurio, o deputado Ignacio Walker Prieto lembra que Lagos já disse que não quer ser o segundo presidente socialista do Chile, mas o terceiro presidente da Concertação.
O candidato da Aliança pelo Chile, que reúne os partidos conservadores União Democrata Independente (UDI) e Renovação Nacional (RN), Joaquin Lanvín, está em segundo lugar, mas sua diferença do líder vem diminuindo. Uma pesquisa eleitoral divulgada na terça-feira mostrou uma diferença muito pequena entre os dois em primeiro turno - embora, na simulação do segundo turno, o candidato Lagos continue em franca vantagem.
O que provocou o acirramento dos ânimos na campanha eleitoral, que vinha transcorrendo num clima relativamente tranquilo até agora, foram denúncias, na semana passada, feitas pelos deputados da oposição conservadora Víctor Pérez (UDI) e Lily Pérez (RN).
Os dois deputados divulgaram uma lista com nomes de pessoas que prestaram serviços ao governo e os honorários recebidos pelos serviços. Na lista, estava o filho do candidato da Concertação, Ricardo Lagos Weber.
O governo insiste em que não há nada de errado com os honorários pagos, ressaltando que esses serviços prestados ao governo foram necessários e públicos e o debate eleitoral está distorcendo os fatos. O presidente Frei respondeu diretamente às denúncias em seu programa de rádio. "A situação é incrível... Não continuemos a faltar com o respeito às pessoas... Não somos ladrões nem corruptos. Tudo está transparente, as informações pedidas foram todas apresentadas", disse o presidente em seu discurso, segundo transcrição feita pelo jornal La Tercera.
As insinuações de que haveria corrupção irritaram profundamente a equipe de Frei. A temperatura subiu mesmo quando o secretário-geral da presidência, José Miguel Insulza, disse que, "se o senhor Lavín tem uma forma diferente de fazer política, que amarre seus cachorros e não deixe que andem mordendo gente pelas ruas", referindo-se às denúncias dos oposicionistas.
A reação de Insulza aumentou os protestos da oposição, que insiste em que integrantes do governo estão utilizando seus cargos para beneficiar o candidato da Concertación ao defendê-lo dessa forma.
Além de Lanvín e Lagos, os dois candidatos líderes nas pesquisas, há quatro candidaturas consideradas "nanicas", mas que podem forçar a realização de um segundo turno em caso de crescimento.
São os candidatos Arturo Frei Bolívar, inscrito pela União de Centro, Gladys Marín, pelo Partido Comunista, a ecologista Sara Larraín e o candidato apoiado pelo partido Humanista, Tomás Hirsch.
Lagos tem deixado claro que não fará um governo do Partido Socialista e vai continuar o programa da coalizão de centro-esquerda, Concertação, defendendo-se das acusações da direita de "radicalismo". Mas sua candidatura, derrotando nas prévias da coalizão outros candidatos democrata-cristãos, testa a flexibilidade e a consolidação da democracia chilena.
"Está claro para os chilenos que não deve haver grandes mudanças econômicas com Lagos. Acredito que seu governo será socialista no sentido de tentar reforçar os gastos sociais", disse à Agência Estado o economista Franco Parisi, da Universidade do Chile.
"Mas é verdade que existe uma certa ansiedade nos mercados sobre quem serão os ocupantes dos postos-chave do governo e se haverá alguma mudança, por exemplo, em impostos ou legislação para o mercado de capitais", afirma Parisi. Lagos ainda não divulgou oficialmente os nomes de sua futura equipe.
A própria candidatura oposicionista, ao adotar o slogan "Lavín, viva a mudança", em cartazes da campanha eleitoral, admite que Lagos pretende continuar o programa da Concertação, mas joga com a insatisfação dos chilenos com o forte crescimento do desemprego, que atingiu a taxa de 11,5% no trimestre entre junho e agosto.
Lagos foi no domingo a Buenos Aires cumprimentar o presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa. O candidato levou vários integrantes de sua equipe de campanha, além dos senadores Jaime Gazmuri e Carlos Ominami.





