Próximas 48 horas serão decisivas para a Guerra de Kosovo Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 31 (AE) - No próximo dia 21 de abril, os líderes dos 19 países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, estarão na capital americana para celebrar o cinquentenário da mais bem sucedida aliança militar defensiva da história. Mas, diante do cenário dramático criado pelo insucesso, até agora, da operação punitiva desencadeada na semana passada contra o governo do presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, um número crescente de políticos, acadêmicos, comentaristas e generais reformados nos Estados Unidos já manifesta seu temor de que a festa do aniversário da OTAN se transforme em funeral.
A decisão política tomada hoje pelo conselho político da aliança, de incluir os Ministérios da Defesa e do Interior da Iugoslávia e outros prédios oficiais no centro de Belgrado na lista de alvos do bombardeio aéreo, não alterou a avaliação francamente pessimista sobre o rumo do confronto.
Reforçam essa percepção a insistência da Casa Branca numa estratégia que, até na sede da própria OTAN, já se reconhece como equivocada e provavelmente fadada ao fracasso militar, depois de ter levado ao agravamento da tragédia humanitária que foi calculada para evitar, ou seja, a campanha de limpeza étnica que os sérvios estão levando a cabo contra a população de origem albanesa da província de Kosovo.
O secretário geral da OTAN, o espanhol Javier Solana, fez uma primeira admissão de derrota, na noite de terça-feira, ao falar das dificuldades de evitar o genocídio dos kosovares. "Talvez não tenhamos os meios para pará-lo, mas mostramos que temos a vontade para tentar", afirmou ele.
O comandante supremo das forças aliadas, o general americano Wesley Clark, disse hoje que continua confiante no sucesso da operação, agora que recebeu a luz verde para aumentar o preço que Milosevic terá de pagar por ignorar a vontade internacional expressa pela OTAN. Mas o general avisou que não há garantias de que a escalada dos bombardeios convencerá o líder sérvio a cessar as atrocidades contra os kosovares e retirar sua tropas da província - as pré-condições da aliança para um cessar fogo.
Clark começou também a preparar os espíritos para um aumento substancial do número de baixas, lembrando os riscos que a nova fase da operação impõe tanto para os pilotos como para a população da capital iugoslava. As chances de as bombas acertarem a liderança sérvia são pequenas. Belgrado tem uma vasta rede de "bunkers" antiaéreos construídos na época da guerra e parte dos dirigentes do país já estariam operando desses abrigos.
"Os Estados Unidos e a OTAN têm não mais do que 48 horas para mudar a situação no terreno militar ou fazer face a alternativas pouco atraentes, que têm necessariamente que incluir a mobilização de forças terrestres para proteger a população de Kosovo", disse David Gergen, jornalista que trabalhou como conselheiro de presidentes republicanos e democratas, entre eles Clinton. "O responsável pela agressão contra os kosovares é Milosevic, mas nós temos agora a responsabilidade moral de agir e evitar a maior tragédia na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, pois a nossa estratégia de bombardeios exacerbou a situação, aumentou os riscos para os kosovares e, se esperarmos mais duas semanas, será provavelmente tarde demais".
Duas semanas é, no entanto, o tempo que o presidente Bill Clinton e seus assessores parecem dispostos a esperar para que o bombardeio ampliado da Iugoslávia produza os resultados pretendidos. A atitude da Casa Branca, e as declarações oficiais reiterando que está excluída a mobilização de forças terrestres, alarmam ex-chefes militares.
Normalmente cuidadosos em seus comentários quando as forças americanas estão engajadas em conflito no exterior, na terça-feira alguns deles passaram a questionar publicamente as decisões de Clinton e da OTAN. "O presidente jamais deveria ter descartado o uso de forças terrestres", disse o almirante reformado Leighton Smith. "Os ataques aéreos não serão suficientes e o que a declaração fez foi amarrar uma das mãos da OTAN".
O professor Robert Pape, historiador do Dartmouth College, em New Hampshire, e autor de um livro sobre o poder aéreo, disse que "nos 75 anos da história do uso de aviões em guerras, não há um único caso em que os bombardeios asseguraram a vitória sem o desembarque das tropas".
O que fazer? Para o ex-general de exército Perry Scott, que fez parte do estado-maior na Guerra do Golfo e hoje é professor na Universidade de Harvard, uma alternativa é reforçar as tropas aliadas já estacionadas na região - há 10 mil soldados na Macedônia e pelo menos outros 30 mil na Bósnia, em missões de paz - com forças expedicionárias de fuzileiros navais já no Adriático e a infantaria de mobilização rápida da Octagésima Segunda Divisão Aerotransportada, baseada em Fort Bragg, Carolina do Norte, e criar alguns santuários em Kosovo para as dezenas de milhares de refugiados que estão tentando chegar à fronteira. Ninguém, contudo, tem solução para a situação dos kosovares que foram e continuam a ser usados pelos sérvios como escudos contra o bombardeio aliado.
De acordo com uma pesquisa da rede CNN, 50% dos americanos são contra a introdução de tropas no conflito e 45% manifestam-se a favor. As imagens das multidões de desesperados kosovares que chegaram nos últimos dias à Albânia, Macedônia e Montenegro e seus horripilantes relatos das atrocidades cometidas pelos sérvios talvez leve uma parcela maior da opinião pública americana a apoiar a introdução de forças terrestres.
Se esta opção se apresentar, a questão será saber se Clinton, um presidente diminuído pelo escândalo Lewinsky, terá coragem política e autoridade moral para pedir aos americanos que sacrifiquem seus filhos e filhas num conflito travado em nome de uma causa que a maioria não compreende ou se capitulará diante de Milosevic.
Nenhuma das duas opções é aceitável para o presidente americano, um líder com uma reputação sofrível em matéria de política externa e que pode ter perdido, agora, o ingrediente que o ajudou até agora a evitar as grandes crises diplomático-militares que costumam a testar os ocupantes da Casa Branca: a sorte.





