Assunção, 27 (AE) - "O senhor está dando um golpe?" Os rumores de golpe foram tão frequentes nos últimos dias em Assunção, capital paraguaia, que a pergunta, feita por um jornalista ao comandante de uma das principais bases do país, não parecia fora de propósito. A batalha campal que tomou conta da Praça do Congresso, da noite de sexta-feira até a madrugada do sábado, deixou pelo menos quatro mortos e um número ainda indeterminado de feridos.
Desde terça-feira, quando foi assassinado o vice-presidente Luís María Argaña, a crise política paraguaia, que se arrastava havia quase um ano, ganhou tons de violência poucas vezes vista na história do país.
Para acrescentar mais elementos tragicômicos ao drama que assola um país onde a miséria extrema atinge um em cada três habitantes, o golpe de Estado, segundo rumores, tinha até hora marcada: "Golpe às 19 horas da sexta-feira."
O clímax e o anticlímax estão sucedendo-se rapidamente: em um momento, corre o boato de que o presidente Raúl Cubas está renunciando. Logo depois, é desmentido e anuncia-se que tanques do Exército estão a poucas quadras do centro das manifestações. Os blindados mudam de direção e, mais uma vez, a cidade submerge numa calma provisória.
Neste sábado a cidade se encarregou de limpar as ruas centrais, cheias de escombros, e chorar as quatro mortes confirmadas da madrugada. O país não está em estado de sítio formal, mas, informalmente, envia sinais contraditórios: como forma de reprimir os protestos, o presidente autorizou a ação das Forças Armadas para controlar os distúrbios.
No sábado de manhã, Cubas declarou em rede nacional que "lamentava as mortes", às quais qualificou de "desnecessárias", e acusou a oposição de ter provocado os choques com a polícia. O presidente convocou a população a manifestar-se pacificamente durante o processo de impeachment. Cubas declarou que aceitará "qualquer resultado".
Mas o tom moderado e resignado de Cubas não foi suficiente para acalmar a população, que, além das mortes, chocou-se com as imagens de franco-atiradores atirando contra a multidão que se opunha à permanência de Cubas no poder.
A movimentação de policiais e das Forças Armadas foi intensa. Ao redor da meia-noite, o volume de comunicações era tão grande que causou interferência nas transmissões de TV. Falando em guarani, militares mencionavam "granadas" e "forças que estavam vindo".
A crise política do Paraguai aprofundou-se em fevereiro, quando Cubas decidiu ignorar a ordem da Corte Suprema de Justiça de devolver à prisão o general de reserva Lino Oviedo. A atitude do presidente foi encarada como uma ruptura da ordem institucional, e seu julgamento político foi marcado para 7 de abril. A morte de Argaña, seu inimigo político, precipitou os acontecimentos, levando Cubas a um processo que poderá implicar em seu impeachment nesta semana.
No entanto, a origem da crise é anterior: Oviedo estava preso desde março de 1998, quando foi julgado e condenado de ter tentado dar um golpe, em 1996, contra o então presidente, Juan Carlos Wasmosy. Após a tentativa, Oviedo passou um breve período na prisão, mas a pressão das Forças Armadas fez que fosse solto. Oviedo conseguiu a designação para ser candidato à presidência do país pelo Partido Colorado, que governa o país há meio século. No entanto, foi bloqueado pela Justiça, que voltou a prendê-lo.
Nesse momento, Cubas, seu candidato a vice, tornou-se o candidato a presidente. Mas teve de aceitar como vice a Argaña. Cubas foi eleito, e pouco depois liberou Oviedo.
Por esse motivo, Cubas está sendo acusado de "atentado contra o equilíbrio dos três poderes". Além disso, é acusado de não cumprir a obrigação constitucional de colaborar com a Justiça e de negar-se a submeter-se às ordens judiciais.

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