Washington, 17 (AE) - As manifestações contra o Banco Mundial (BIRD) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) mantiveram o centro de Washington paralizado hoje pelo segundo dia consecutivo mas não impediram que as duas organizações completassem o programa de reuniões semestrais dos ministros das finanças de seus 182 países memebros.
Numa resposta às críticas dos manifestantes ao BIRD e ao FMI como instrumentos de uma globalização que agrava o problema da pobreza no mundo, o Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial encerrou seus trabalhos "enfatizando a importância que (os ministros) dão à preservação e ao fortalecimento da família de instituições multilaterais como uma poderosa força em favor do progresso global, da equidade e da estabilidade".
Em seu comunicado final, os ministros do comitê do desenvolvimento instruíram o Banco Mundial a prosseguir em seu trabalho para a contenção da aids na áfrica, chamaram atenção para a necessidade de uma redução tarifárias nos países ricos para as exportações das nações em desenvolvimento e endossaram a continuação do programa de redução da dívida oficial dos países mais pobres e endividados.
Em contraste com afirmação do ministro das Finanças da Inglaterra , Gordon Brown, segundo a qual o Comitê Financeiro e Monetário Internacional não tinha ouvido "o barulho lá fora", o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn afirmou que se sentira pessoalmente afetado pelos protestos.
"Nós acreditamos que estamos empenhados num trabalho cujo objetivo é a redução da pobreza", disse ele. "No Brasil, por exemplo, dois terços dos nossos empréstimos destinam-se hoje ao nordeste, que é a região mais pobre do País", explicou.
"Nós tivemos esta semana reuniões com representantes de 60 organizações não-governamentais e continuaremos trabalhando para integrar a sociedade civil nos nossos programas", disse.
Wolfensohn notou, no entanto, que muitos dos participantes dos protestos haviam recusado o diálogo com o Banco Mundial. "Eles estão pregando para os convertidos", disse ele.
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, classificou de "equivocada" a tese principal dos manifestantes, segundo a qual o Banco Mundial e o FMI são os responsáveis pelo agravamento da pobreza no mundo. "Mas, apesar dos inconvenientes, é melhor ter do que não ter essas manifestações", afirmou. "Como democrata, acho que a discussão é sempre saudável e, como dizia o Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra."
A chuva que caiu sobre a cidade durante todo o dia reduziu o número de manifestantes da véspera para cerca de 2.000. Com o presidente Bill Clinton fora de Washington, em viagem à Califórnia, o governo federal dispensou os funcionários não essenciais que trabalham nos edifícios oficiais nas proximidades da Casa Branca e facilitou o trabalho da política, esvaziando o centro da cidade.
As tentativas de alguns manifestantes de bloquear o caminho aos delegados à reunião do Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial transformaram os protestos numa sucessão de pequenos tumultos nas ruas, que a polícia enfrentou com mais energia do que do domingo. Os policiais usaram bombas de fumaça e gás lacrimogêneo em confrontos com manifestantes e prenderam cerca de 100 pessoas.
Sem ter conseguido repetir o triunfo político dos protestos que marcaram a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, em dezembro do ano passado, os organizadores da "Mobilização Pela Justiça Global", o nome oficial da manifestação, usaram a decisão da polícia de isolar o centro de Washington para cantar vitória.
"A polícia militarizou a nossa capital", disse Steve Kretzmann, um dos líderes dos protestos. "Esse é o tipo de ação que apenas aumenta a nossa determinação", disse. "Nós não recuaremos."
A causa dos manifestantes recebeu apoio de algumas celebridades, como os atores Tim Robbins e Susan Sarandon, que participaram de um comício debaixo de chuva na Elipse, um parque próximo à Casa Branca.
Os manifestantes conseguiram criar as imagens dramáticas de confrontação que ficarão como os símbolos da primeira reunião do BIRD e do FMI no novo século. Mas a ausência de uma mensagem mais clara e coerente impediu-os de repetir o êxito político das manifestações contra a OMC em Seattle. Na verdade, eles perderam a batalha de relações públicas.
A ação paciente e profissional dos policiais de Washington, que foi elogiada pelas emissoras locais de televisão, evitou que os protestos tivessem consequências maiores. Não houve quebra de vitrines e os ferimentos limitaram-se a tornozelos torcidos, galos na cabeça e uma manifestante que levou uma mordida de uma senhora inconformada por ter tido seu caminho bloqueado na rua.

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