Protestos de rua depois de anúncio de vitória de Bouteflika
Argel, 16 (AE-AP) - Protestos de rua eclodiram hoje (16) em Argel e outras cidades depois que o candidato apoiado pelo Exército, Abdelaziz Bouteflika, foi declarado vencedor da "eleição de um homem só" para a presidência da Argélia, marcada pelo baixo comparecimento às urnas depois que seis dos sete candidatos abandonaram a disputa denunciando fraude em larga escala.
Segundo testemunhas, a polícia de choque reprimiu violentamente centenas de manifestantes anti-Bouteflika na Praça Primeiro de Maio, em Argel, deixando vários feridos.
Milhares de pessoas protestaram também nas cidades de Tizi Ouzou e Bejaia, nas quais a eleição de quinta-feira foi amplamente boicotada.
"Poder assassino, Bouteflika assassino", gritavam os manifestantes nas três cidades. Eles protestavam contra as alegadas fraudes que, segundo a oposição, o regime (controlado pelo Exército) cometeu para impor a vitória do ex-chanceler.
Segundo o Ministéro do Interior, Bouteflika, de 63 anos, obteve 73,79% dos 10,5 milhões de votos que as autoridades afirmam ter sido depositados nas urnas. O candidato único, que prometia "voltar para casa" se não fosse sufragado por uma "maioria substancial, real, clara e transparente" dos eleitores, apressou-se em aceitar a vitória.
"O povo argelino expressou-se claramente e elegeu-me democraticamente para a presidência da república", afirmou. "Comprometo-me a ser o presidente de todos os argelinos."
Conforme os números do governo, 60,25% dos eleitores compareceram às urnas - menos que os 74,82% divulgados oficialmente na eleição de 1995. Mas, segundo a oposição, o comparecimento foi ainda menor.
"É uma vergonha", afirmou o ex-candidato Ahmed Taleb Ibrahim - que, embora se tenha retirado da disputa, recebeu, oficialmente, 12,53% dos votos. "Recuso-me a participar de um processo imoral que as pessoas sabem estar fraudado", acrescentou Ibrahim, apoiado pela proscrita Frente Islâmica de Salvação (FIS). "A prova da fraude é que a participação não excedeu 25%, de acordo com nossas informações."
Outro ex-candidato oposicionista, Mouloud Hamrouche, também contestou a versão do governo. "De acordo com minhas fontes, a participação foi muito baixa nas grandes cidades e nas regiões montanhosas. Os números oficiais são, na minha opinião, incorretos."
Uma semana depois que o Conselho Constitucional confirmar o resultado da votação, Bouteflika será empossado como primeiro presidente civil da Argélia em mais de três décadas.
Hoje ele se recusou a antecipar quais serão suas prioridades e também não disse se abrirá um diálogo com a integrista FIS, que já foi o maior grupo de oposição do país - hoje mergulhado numa guerra civil que já matou 75 mil pessoas desde 1992, quando foram anuladas eleições gerais cujo primeiro turno fora vencido pela frente islâmica.





