Protestos contra poder militar varrem a Indonésia
Jacarta, 23 (AE-AP) - Uma onda de violentos protestos varreu hoje (23) a Indonésia, depois de o Parlamento ter aprovado uma lei que permite ao exército eliminar liberdades civis em "situações de emergência".
Segundo testemunhas, três pessoas morreram em conflitos com as tropas de choque da polícia, durante o protesto mais violento, ocorrido na capital Jacarta.
De acordo com a cadeia de televisão SCTV, pelo menos 53 pessoas ficaram feridas. Quatro delas foram levadas a hospitais com ferimentos graves de bala, enquanto que outros manifestantes chegaram cobertos de sangue à clínica da Universidade Atma Jaya, localizada no centro da capital.
"Este governo quer que o exército assuma tudo", disse Dani Syahrir, um estudante de informática de 21 anos. "Nós, os estudantes da Indonésia, rejeitamos absolutamente, porque isso significa a morte da democracia".
Cerca de 5.000 manifestantes entraram em choque com a polícia na avenida que conduz ao Parlamento, em Jacarta. Cordões de policiais, levando escudos de proteção e usando equipamentos de choque, atiraram balas de borracha e lançaram bombas de gás lacrimogêneo contra a multidão, que respondeu com pedras, garrafas e bombas caseiras.
Alguns carros da polícia foram incendiados. Os manifestantes também arrancaram placas de trânsito e as usaram para bloquear as principais ruas da cidade.
"Temos que destruir o regime Suharto-Habibie-Wiranto!", gritava um estudante que se identificou apenas como Handono.
O presidente Suharto, que governou a Indonésia com mão de ferro durante 32 anos, foi derrubado ano passado em meio a um grande protesto pró-democracia e substituído por seu protegido B.J. Habibie. O chefe do exército, general Wiranto, patrocinou a lei de segurança que foi aprovada hoje.
Os manifestantes tomaram também as ruas de outras cidades do país. Em Surabaya (a segunda maior cidade) e na ilha de Bali milhares de pessoas protestaram contra a nova lei.
Cerca de 300 estudantes marcharam até o prédio da representação governamental na província separatista de Aceh, onde foram registrados confrontos com a polícia.
Protestos semelhantes aconteceram em Semarang, Ujung Pandang e Yogjakarta.
As demonstrações pareceram diminuir com o anoitecer, embora manifestantes e policiais continuassem bloqueando as principais avenidas de Jacarta.
A lei de segurança aprovada hoje pelo Parlamento delega ainda mais poder ao exército. Uma vez declarado o estado de emergência, ela permite aos militares, por exemplo, proibir protestos, assumir o sistema de telecomunicações e serviço de correios e ignorar leis existentes que garantem os direitos humanos dos cidadãos indonésios.
O controle quase que total do exército sobre a sociedade indonésia tem sido mascarado desde a queda do então presidente Suharto.
Analistas disseram que os generais de linha-dura querem agora assegurar sua posição à frente da inauguração, em novembro, do novo Parlamento, o primeiro democraticamente eleito em 44 anos.
O Parlamento atual, cujo termo expira esta semana, é dominado por aliados direitistas das forças armadas que apoiaram o reinado de Suharto.
"A lei será adotada não para servir os interesses do exército, mas para salvaguardar a unidade da nação", disse Wiranto.





