Protesto se transforma no maior ato político contra o governo
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quinta-feira, 17 de abril de 1997
Agência Estado 
Agência Estado
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MobilizaçãoOs integrantes das três colunas, com 2.100 sem-terra, entraram ontem pela manhã em BrasíliaBRASÍLIA - A Marcha dos sem-terra pela reforma agrária ontem em Brasília se transformou no maior ato político já realizado contra o governo Fernando Henrique Cardoso em pouco mais de dois anos de mandato. Manifestantes de vários estados tomaram a capital federal e, durante todo o dia, realizaram atos públicos pela acelação da reforma agrária; pediram apuração dos casos de conflito terra e a punição dos responsáveis pelas mortes no campo. A manifestação dos sem-terra, recebeu a adesão de trabalhadores ligados à CUT; da União Nacional dos Estudantes (UNE), eletricitários, petroleiros, comunidades eclesiais de base, aposentados, empresários, carteiros demitidos no governo Collor e da população em geral.
Um culto ecumêmico marcou o fim da manifestação, já no começo da noite. Dividido em quatro momentos, o ato ecumênico foi aberto com a chegada da marcha dos sem-terra à Esplanada dos Ministérios depois de passarem na porta do Palácio do Planalto. Em seguida às bênçãos iniciais dos religiosos, foram lidos os nomes dos 19 trabalhadores sem-terra mortos em Eldorados de Carajás, sul do Pará, há um ano, das 11 pessoas mortas em Corumbiara, em Rondônia, além de líderes mortos como Chico Mendes, Margarida Maria Alves, Marçal Guarani e o padre Ezequiel Ramim.
O final foi um dos pontos altos do ato ecumênico. Com a presença dos políticos no palanque e cantando o Hino Nacional, a população agitava as bandeiras, faixas.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, que na hora da manifestação recebia o ministro do Planejamento, Antônio Kandir, entretanto, preferiu permanecer em seu gabinete. Não, não vi. Inclusive daqui não dá para ouvir nada, disse o presidente, mais tarde, aos fotógrafos, que registravam a audiência com o ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann. Hoje o presidente recebe uma comissão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para discutir a política de reforma agrária.
Os integrantes das três colunas que compuseram a Marcha dos Sem-Terra, integradas por 2.100 trabalhadores rurais, procedentes de São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Estados do Sul, entraram pela manhã em Brasília.
Os ataques diretos ao presidente Fernando Henrique e ao ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, foram constantes na caminhada dos manifestantes até a Praça dos Três Poderes. FHC, que papelão, mata sem-terra e ainda quer reeleição foi um dos slogans usados pelos manifestantes. O líder do MST, José Rainha, recebeu um tratamento de estrela entre os que participavam das manifestações. Cercado por militantes, ele mal conseguia caminhar.
Por diversas vezes, o líder dos sem-terra pediu a demissão do ministro Jungmann, dizendo que ele agora ia virar sem-emprego. Rainha não parecia preocupado com a carona dos partidos políticos e sindicatos. O MST busca o apoio de todo mundo, afirmou.
Em meio aos parlamentares que se juntaram à marcha, como os senadores Roberto Freire (PPS-PE), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Benedita da Silva (PT-RJ), além de políticos conhecidos como Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, havia lideranças de todo tipo de movimento. Índios, estudantes, metalúrgicos e até mesmo os membros da pouco conhecida Associação Brasileira de Criminalística (ABC) participaram das manifestações.
O ato político em frente ao Congresso Nacional foi encerrado com um discurso do coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile. Stédile disse, no início do discurso, que não sabe o que os líderes do MST vão falar a Fernando Henrique. Não viemos a Brasília para falar com o presidente, viemos para falar com vocês, pois é a sociedade que tem o poder de mudar as coisas, e não o príncipe, declarou ele.
Antes, da audiência com o presidente, marcada paras às 16 horas de hoje, as lideranças dos sem-terra serão recebidas hoje pelo presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e da Câmara, Michel Temer. Às 11 horas eles devem ser recebidos pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Sepúlveda Pertence.


