Diretor do Instituto de Saúde e Pesquisa Médica de Paris, o cientista francês Yves Legrand está no Rio para apresentar os resultados de sua mais recente pesquisa de combate ao câncer, concluída há vinte dias. Trata-se de uma alteração genética de uma proteína que pode matar os tumores cancerosos por asfixia, bloqueando a irrigação de sangue. O princípio é o mesmo da angiogênese; a diferença é que o resultado é alcançado por manipulação genética.
Os resultados das pesquisas desenvolvidas por Legrand com camundongos foram publicados nas revistas científicas norte-americanas ‘‘PNAS’’ e ‘‘Gene Therapy’’. A terapia é totalmente eficaz para evitar a formação de vasos sanguíneos nos tumores e, em muitos casos, para evitar a proliferação das células cancerosas pelo corpo - a metástase. ‘‘Em vez de bombardear o inimigo, com todas as consequências negativas que isso pode ter, o isolamos, impedindo que se alimente’’, explica Legrand. ‘‘O objetivo é, no futuro, conseguir transformar os tumores malignos em inofensivos.’’
A terapia é feita por meio da manipulação genética de uma parte da proteína chamada uroquinase. Essa proteína é responsável pela formação dos vasos sanguíneos que irão irrigar o tumor, fazendo-o crescer. O método desenvolvido por Legrand consiste em alterar geneticamente a proteína, retirando dela a parte responsável pela formação dos vasos. ‘‘Sem os vasos para irrigá-lo, um tumor não cresce mais de dois milímetros’’, afirma Legrand, mostrando a importância da vascularização para o desenvolvimento do câncer. Sem os vasos também é muito difícil a metástase.
A proteína alterada é injetada diretamente no local do tumor e impede a formação de vasos sanguíneos. ‘‘Teoricamente isso é positivo, porque, no futuro, evitaria o surgimento de novos tumores’’, diz Legrand. Segundo o cientista, a proteína alterada fica restrita à área do tumor e não interfere no funcionamento normal das demais proteínas não alteradas. ‘‘A uroquinase cumpre um papel importante, que não pode ser alterado no restante do corpo’’, afirma. Esse é um dos mostivos pelos quais a proteína alterada não pode ser transformada em comprimido. ‘‘Nesse caso, ela iria para todo o corpo igualmente.’’
A asfixia do tumor canceroso por meio do bloqueio de sua vascularização já foi apresentada por uma equipe da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, que utiliza duas outras proteínas para impedir a formação de vasos sanguíneos. A novidade na terapia de Legrand é que ele consegue o mesmo efeito por meio da manipulação genética. ‘‘Seja de uma forma ou de outra, a asfixia do tumor é o melhor método de combate ao câncer, uma vez que a retirada do tumor nem sempre funciona.’’ O cientista não tem previsão de quando seu método poderá começar a ser testado em seres humanos. Legrand faria palestra ontem sobre o assunto no Hospital Universitário Pedro Ernesto.

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