Trabalhadores da Usina Central Paraná, produtora de açúcar e álcool em Porecatu, em greve há doze dias, rejeitaram ontem a proposta patronal e continuam a paralisação por tempo indeterminado.
Um total de 1.422 pessoas votaram em segunda assembléia, que foi secreta. Foram registrados 1.132 pela continuação da greve e 279 aceitaram a proposta da usina. Votos brancos e nulos somaram 11.
O comando de greve, coordenado pelo Sindicato dos Rodoviários de Londrina, encaminhou quatro urnas itinerantes às fazendas da usina convocando a votação. Outra urna ficou em frente aos portões da empresa. Ainda hoje o comando de greve deve definir uma nova rodada de negociações com a empresa.
A usina é acusada de não recolher o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) dos trabalhadores, de descontar da folha de pagamento os valores destinados ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e a contribuição sindical e não repassá-los aos órgãos a que são destinados.
Um funcionário da usina, que não quis se identificar, contou que foi demitido em maio do ano passado e até agora não recebeu nenhum direito trabalhista. ‘‘Na minha conta tem apenas R$ 556,00 de FGTS’’, afirmou o funcionário, que trabalhou durante seis anos na usina.
Segundo os trabalhadores, o Grupo Atalla é proprietário de 50 fazendas no Paraná. Existem famílias morando em 27 delas. No Estado de São Paulo os usineiros teriam mais quatro fazendas.
Doente, em cima de uma cama, o cortador de cana Altamir Lemos da Silva, 21 anos, espera a usina pagar os salários atrasados. Empregado da empresa há seis anos, Silva se afastou do trabalho há pouco mais de cinco meses depois que descobriu um nódulo no pescoço. Há um mês e meio ele fez uma biópsia, que detectou um tumor.
‘‘Acho que não é tumor maligno, porque o médico disse que tem cura’’, comentou Silva, que já emagreceu 13 quilos. Enquanto aguarda o tratamento, Silva confessou que toma analgésico ‘‘por conta própria’’. ‘‘Sinto muita dor de cabeça’’. Sônia, irmã de Silva, também empregada da usina, informou que está devendo em duas farmácias.
Na Fazenda Aparecida, pertencente ao Grupo Atalla, as famílias estão em situação crítica. Édina Moraes, 36 anos, mãe de seis filhos menores, contou que no domingo passado roubou abóbora, mandioca e cinco espigas de milho seco nas roças vizinhas. ‘‘Para fazer canjica’’, disse. ‘‘Não tem mais nada para comer dentro de casa’’.
Para garantir a alimentação da família, Édina Moraes, cujo marido é funcionário da usina, reuniu as crianças e foi pescar. ‘‘Os peixes devem dar para uma refeição’’, comentou. A dona de casa garantiu que não vai permitir que os filhos peçam esmola. ‘‘Vamos passar fome juntos’’, disse.(M.B.)

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