Proposta de socorro ao Marka levou à operação na casa de Lopes
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segunda-feira, 19 de abril de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 20 (AE) - Além do bilhete do dono do Banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, ao então presidente do Banco Central
Francisco Lopes, pedindo a ajuda dele para resolver os problema enfrentados pela instituição com o alargamento da banda cambial, o Ministério Público Federal utilizou um segundo documento encontrado na casa do banqueiro para estabelecer uma relação classificada de "espúria" pelos procuradores: uma carta, em papel timbrado do Marka, datada de 14 de janeiro deste ano, em que é feita uma proposta de socorro nos mesmos moldes da medida adotada pelo BC.
A carta e o bilhete fundamentaram o pedido de busca e apreensão na casa de Lopes, autorizada pela juíza da 6ª Vara Federal, Ana Paula Vieira de Carvalho. A solicitação do MPF, os despachos da juíza e os autos de apreensão nas casas de Lopes, Cacciola e do presidente de Banco FonteCindam, Luiz Antonio Gonçalves, e nas sedes dos dois bancos, foram liberadas hoje pela Justiça Federal. A juíza determinou a quebra do segredo de Justiça dos documentos apreendidos pelo MPF. Em seu despacho, ela diz que a própria medida havia gerado "alarde", não se justificando mais o sigilo.
A carta enviada pelo Marka ao BC, encontrada na casa de Cacciola, está rubricada e carimbada por Claudio Mauch, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central. Nela, Cacciola pede que o BC dê "liquidez às posições em aberto de contrato de dólar futuro (...) num valor que lhe permita fazer face ao seu passivo com a liquidação de seus ativos". Em troca, o banco se comprometeria a "deixar de abrir novas posições no mercado a partir da presente data". Para os procuradores Bruno Caiado e Raquel Branquinho, que assinam o pedido, "o cotejo entre tais documentos (o bilhete e a carta) constitui indício veemente de ligações espúrias do investigado Cacciola com servidores graduados do Banco Central, notadamente o Sr. Francisco Lopes".
No bilhete, Cacciola pede a Lopes que, caso ele não o recebesse, interferisse para que Mauch fosse menos rigoroso e aceitasse a negociação "em um preço razoável". O banqueiro pedia que fosse usada a cotação do dólar a R$ 1,250. O BC acabou concedendo o dólar a R$ 1,2750.
A lista de documentos apreendidos na casa de Lopes consta de 152 itens. Foi feita ainda uma busca no automóvel do economista, um Tempra. Há vários estudos acadêmicos em inglês e espanhol, anotações em reuniões do BC - numa, sem data, ele escreveu: "2) Política monetária - taxa de juros movimento será endógeno ou esterilizado; 3) O fundo foi consultado?? Pode haver antecipação da parcela de fevereiro?".
As alterações societárias na Macrométrica, a empresa de consultoria da qual Lopes foi um dos donos, também interessaram aos procuradores. Num documento manuscrito está descrito um compromisso entre Fabio e Ciça - provavelmente, Fabio Lírio e Araci Benites dos Santos Pugliese, mulher de Lopes, ambos sócios da empresa. Pelos termos acordados, Fábio transferiria suas quotas para Ciça e pagaria, por 36 meses, um "empréstimo" no valor mensal de R$ 650. Em troca, Ciça repassaria para ele a retirada de lucro "correspondente a 48% da Macrométrica Sistemas", descontados o empréstimo e o Imposto de Renda.
Ao final dos 36 meses, Fabio voltaria a ser cotista. Num papel manuscrito, sem assinatura, aparece uma crítica à atuação do Banco Central, atribuindo a falta de liquidez do mercado à política cambial anterior à desvalorização do real. "A atuação do Bacen costumava ser, particularmente em momentos de turbulência, a principal fonte de liquidez para o mercado futuro de dólar, para impedir que um movimento especulativo de alta do preço deste mercado terminasse contaminando o mercado de dólar à vista e provocando perdas de reservas", diz o autor do texto.
Os documentos apreendidos na casa de Cacciola somam 135 itens. Há várias transações imobiliárias. Uma delas é a escritura de compra e venda do apartamento 201 do Edifício Singing Hills, bloco 1, na Avenida Sernambetiba, 5.200, Barra da Tijuca, datada de 30 de janeiro de 1998. Quem compra é a empresa Ranston Company Sociedad Anonima, que, num outro documento, uma planilha de solicitação de contrato, aparece como compradora da CAA - Corretores Autônomos Associados. Até agora, nenhuma das duas empresas havia aparecido como ligada a Cacciola.
Há ainda um comprovante de transferências de fundos de contas em bancos suíços. "Message - para transferência via UBS-banco benef. UBS S.A., ex-SBS - GENEVE - A-C - Continental Economics Corp. nº CO.134.355 AX Ref. Second - Para nos transferir diretamente - Banco benef.- Darier Hentsch e Cie. - Geneve - Acc. 225253 - ref PRIMER - Banco correspondente CITIBANK NA New York", diz o documento, preso por clipes a folhas manuscritas com os nomes de Roberto Moyses, Alberto e C-Corrente Guga.
Os documentos vão continuar sob a guarda provisória da Justiça Federal até que a juíza decida se serão anexados ao inquérito policial pedido pelo MPF à Polícia Federal, ainda não aberto. O procurador da República Gino Liccione disse que, aberto o inquérito, poderá ser pedida a quebra do sigilo bancário e fiscal de Lopes e dos envolvidos no caso. O MPF solicitou à PF também uma perícia completa dos documentos, o exame grafotécnico de Cacciola, Lopes e do sócio da Macrométrica Sérgio Bragança, as atas dos bancos e da Macrométrica e que todos os sócios e acionistas destas instituições desde 1996 sejam ouvidos.


