Proposta de regular capitais não é bem recebida em conferência sobre Terceira Via
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de novembro de 1999
Por Ribamar Oliveira, enviado especial 
Florença, Itália, 21 (AE) - A proposta de regular o fluxo internacional de capitais, principalmente o de curto prazo
apresentada hoje formalmente pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, durante a conferência O Governo Progressista para o Século 21, não foi bem recebida por três importantes líderes mundiais. As manifestações contrárias foram do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, do primeiro-ministro da Inglaterra
Tony Blair, e do primeiro-ministro da Alemanha, Gerhard Schreder. Segundo Fernando Henrique, o objetivo da medida seria evitar que a crise de um país atinja outros por contágio.
Bill Clinton chegou a dizer que a adoção de políticas econômicas domésticas adequadas é que dá segurança aos países e mantém a confiança dos investidores. Em defesa de sua tese, Fernando Henrique citou o exemplo do Brasil e disse que o País perdeu US$ 20 bilhões num único mês, setembro de 1998, por causa da fuga de capitais provocada pelo pânico dos investidores depois da crise Russa.
De maneira habilidosa, pois não citou o nome de nenhuma nação, Clinton considerou natural que os investidores tirem os seus recursos dos países em que não confiam mais. Segundo ele, ninguém vai colocar dinheiro onde não pode fazer dinheiro. "Temos que continuar com a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird), mas os países precisam controlar suas políticas econômicas e ajustar as suas contas", afirmou.
Ele concordou com as afirmações de que o FMI e o Bird "não souberam enfrentar as crises desta década". O presidente americano falou do dinheiro emprestado a alguns países e que sumiu por causa da corrupção. Existe, na sua avaliação, espaço para aperfeiçoamento. Clinton disse que alguns países adotaram políticas adequadas de controle do fluxo de saída de capitais que deram certo. Citou o caso do Chile e da Malásia. Clinton acredita que os governos desses dois países tiveram êxito em suas políticas porque colocaram em prática políticas que tiveram credibilidade e despertaram a confiança dos investidores.
No caso da Rússia, que também tentou controlar o fluxo de capitais, lembrou que o resultado foi o inverso: os investidores simplesmente tiraram o seu dinheiro porque a política daquele país não tinha credibilidade e não despertava confiança dos mercados. Para Clinton, "a velha e a nova esquerda (talvez uma referência à "terceira via") têm que aceitar a realidade de que é preciso ter disciplina fiscal". O presidente americano chegou a citar o exemplo de Uganda para mostrar que uma política econômica adequada pode fazer milagres. "Aquele país africano está crescendo 5% ano ano", afirmou.
Cuidado - O primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, também foi muito habilidoso ao tratar a proposta de Fernando Henrique. "Ouvimos com emoção o que Fernando Henrique disse sobre a situação do Brasil", disse. Blair apoiou a tese genérica de que a globalização da economia resultará em um novo quadro para as finanças internacionais. Mas alertou que "qualquer mudança não pode ser baseada no interesse pessoal" e nem pode tolher os benefícios do fluxo internacional de capitais. "Temos que tomar cuidado para não andar para trás, perder o dinamismo da economia e obter, ao final, um resultado oposto ao que queríamos"
O primeiro-ministro da Alemanha, Gerhard Schreder, bateu na mesma tecla. "Concordo com Blair porque não podemos chegar a bloquear os fluxos internacionais de capitais", disse. Schreder acha que o sistema financeiro internacional vai evoluir para a criação de certos "alarmes", que permitam identificar rapidamente eventuais situações de risco. Para isso, ele defendeu uma transparência crescente dos mercados financeiros e das políticas econômicas dos países, com a divulgação permanente de dados e informações fundamentais aos investidores. Blair defendeuo mesmo.
Comentários - A pedido do primeiro ministro da Itália, Massimo DAlema, os líderes comentaram a proposta apresentada por Fernando Henrique, que informou ter o Brasil sofrido profundamente com as crises do México, da ásia e da Rússia. Mesmo, segundo ele, tendo contas públicas e sistema bancário inteiramente diverso daqueles países. "Tudo estava sob controle
menos as expectativas dos mercados", disse. "O Brasil consegui atravessar essas tempestade, mas até quando?", perguntou.
O presidente brasileiro chegou a falar na criação da taxa Tobin (quem propôs esse mecanismo foi o economista americano James Tobin), que incidiria - um pequeno porcentual - sobre os capitais especulativos e o dinheiro serviria como um colchão de liquidez, a ser administrado pelo FMI e pelo Bird. Nenhum dos líderes comentou a idéia da taxa Tobin, nem mesmo Massimo DAlema e o primeiro-ministro da França, Lionel Jospin.
Depois do almoço, os líderes voltaram a se reunir na sala de conferência e Fernando Henrique insistiu no assunto. Perguntou porque os países iriam pagar as contas sozinhos pelas crises provocadas pela saída dos capitais, se antes das expectativas se deteriorarem os próprios bancos incentivam os investidores a emprestar os seus recursos. "Não é justo", disse. Complemento - Nenhum líder voltou a comentar o assunto. Em entrevista depois da conferência, Fernando Henrique afirmou que não tinha visto as observações feitas pelos líderes "como uma resposta" à sua proposta, mas "como um complemento". O presidente foi, então, mais cáustico em sua crítica: "em nome de ideologias liberal ou neoliberal não se enxergam as realidades".
A conferência "Progressive Governance for the 21st Century" terminou hoje sem uma declaração conjunta. Cada líder falou sobre suas expectativas para o próximo milênio e o primeiro-ministro da Alemanha convidou os presentes para um novo encontro em seu país.


