Promotores pedem 15 anos de prisão para Andreotti
Palermo, 08 (AE-ANSA) - A promotoria de Palermo pediu hoje 15 anos de prisão e a proibição do exercício de direitos civis para o sete vezes primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, julgado na Sicília por envolvimento com a Máfia.
"Com Andreotti a Máfia aumentou sua capacidade criminal durante quase 20 anos, tornando-se uma associação única no mundo, exercendo uma soberania de Estado ilegal", sustentaram os promotores sicilianos.
Além disso, afirmaram que as relações entre Andreotti e a Cosa Nostra não foram ocasionais e que a corrente política do líder democrata-cristão na Sicília se converteu em uma "estrutura de serviço" da Máfia.
O promotor Roberto Scarpinato pediu 12 anos de prisão para o político pelo delito de associação mafiosa e outros três anos pela continuação do mesmo delito.
Andreotti, de 80 anos, que desde o pós-guerra até os anos 90 foi o político símbolo da Itália, não compareceu ao tribunal, mas através de uma declaração assinada com seus advogados denunciou o fato dos promotores terem ignorado as provas trazidas pela defesa.
"É fácil pedir condenação quando os promotores, com absoluta indiferença, ignoram totalmente as provas contrárias apresentadas pela defesa", indicou a declaração escrita pelo senador vitalício e seus advogados.
A declaração também afirma que a promotoria considerou "como certos fatos demonstrados pela defesa como inexistentes e como certas as declarações de arrependidos que tiveram seus depoimentos comprovados como falsos".
O julgamento começou no dia 26 de setembro de 1995. Nestes anos, houve 217 audiências, durante as quais 350 testemunhas da acusação e da defesa foram ouvidas.
As relações de Andreotti com a Cosa Nostra se basearam, segundo a promotoria, numa "lógica da troca": para assegurar-se do apoio eleitoral incondicional da Democracia Cristã (DC) na Sicília, e com ele de seu próprio poder político e de sua "corrente" na ilha, Andreotti se comprometeu a "ajustar" os principais processos contra os "padrinhos" mafiosos.
O ex-primeiro-ministro sempre negou estas acusações e denunciou um complô orquestrado tomando por base a falsidade das declarações dos mafiosos "arrependidos".
Segundo os testemunhos de alguns destes, Andreotti utilizou como "mediadores" em suas relações os grandes chefes da Máfia, os irmãos Nino e Ignacio Salvo, "homens de honra" da Cosa Nostra, que "desviavam e asseguravam" os votos para a DC.
Um elemento fundamental da acusação foi o testemunho de Balduccio Di Maggio, um dos principais "arrependidos", que testemunhou sobre as reuniões secretas de Andreotti com o ex- "padrinho" mafioso, o corleonês Totó Riina.
Foi num destes encontros, ocorrido em 1987 em Palermo, que Andreotti estampou o famoso beijo no rosto do "capo" mafioso Riina, segundo Di Maggio.
"A contribuição de Andreotti permitiu à Cosa Nostra perseguir um objetivo que não teria podido alcançar com sua estrutura militar", disse hoje o promotor Scarpinato, para quem "este processo é o conjunto de fragmentos de uma única história: uma angustiante descida aos infernos da câmara da morte da democracia".
Enquanto para alguns representantes políticos esta petição de pena "é consequência das argumentações", outros se limitaram a recordar que era "uma petição e não uma condenação".
Os advogados de Andreotti apresentarão suas declarações finais até o dia 18 de maio. Faltam ainda sete audiências e a sentença do processo poderia sair em junho.
O ex líder da DC enfrenta outro processo na cidade de Perusa, onde está sendo acusado do homicídio do jornalista Mino Pecorelli, assassinado quando estava prestes a publicar informações comprometedoras para a carreira de Andreotti.





