Kitui, Quênia (AE-AP) - Tremendo tanto pelo esforço da subida quanto pela ansiedade sobre o desconhecido, camponeses idosos com olhos nebulosos permitem que o doutor Fayaz Khan os guie até furgões que os levarão de suas casas nesta região agrícola seca e empoeirada.
Mas Muteki Muma não está com medo. O doutor que veio de Nairóbi está oferecendo à quase cega viúva um dos seus milagres: uma cirurgia gratuita para remover a catarata de seu olho direito.
Muteki sempre viveu em sua terra, nesta fria área onde as pancadas de chuva são tão escassas quanto a vida dos agricultores de milho e ervilhas. Mas quando a visão de seu olho bom começou a falhar dois anos atrás, ela não pôde mais recolher lenha, cuidar do gado ou cultivar seus campos.
"Eu não estou com medo porque eu quero minha visão de volta", diz Muteki, um sorriso com poucos dentes demonstrando a esperança de seu rosto desgastado. "Eu já vi muitos voltarem com a visão restituída e eu acho que é um milagre. Você vai para lá cego e volta com a visão boa".
A cada ano, 15 mil pessoas como Muteki juntam-se ao grupo de cerca de 150 mil quenianos que tornam-se cegos devido à catarata
um problema que pode ser corrigido. A maioria vive em áreas rurais remotas, onde doenças e subnutrição são abundantes, cuidados médicos são praticamente inexistentes e a vida é quase impossível sem o sentido da visão.
A Organização Mundial da Saúde diz que cerca de 40 milhões de pessoas em todo o mundo perderam sua visão, 80% dos casos poderiam ter sido prevenidos ou mesmo ter o quadro revertido com cuidados médicos apropriados.
Em Kitui, 125 quilômetros ao leste de Nairóbi, a capital do Quênia, a poeira dos campos ressequidos e a fumaça do fogo dentro de casa, aceso para o preparo de comida, agravam os problemas de visão, diz Kahn, oftalmologista chefe do SightFirst Hospital em Nairóbi.
Apoiado pelo Lions Club International, o hospital possui uma clínica oftalmológica móvel que vem a Kitui uma vez por mês durante seu trajeto que passa por quatro cidades, encontrando e tratando pessoas com problemas de visão.
A maioria dos casos de cegueira no Quênia é causado por catarata, mas há também muitos casos de tracoma, deficiência nutricional, trauma ocular, infecção e glaucoma.
Muteki, que afirma ter nascido durante a Primeira Guerra Mundial, perdeu a visão do olho esquerdo devido a uma infecção uma década atrás. Quando seu olho direito começou a tornar-se nebuloso há dois anos, ela diz que resignou-se à idéia de terminar sua vida cega.
"Trata-se de um problema facilmente evitável", diz Kahn enquanto observa os nebulosos olhos de uma vítima da catarata em Kitui. "Mas a situação econômica dos pacientes é tão ruim que é mais importante para eles conseguir comida e roupas para as crianças do que trazer uma velha mulher ao hospital".
SightFirst Hospital, que faz parte da iniciativa global do Lions Club, já realizou 2.400 cirurgias de catarata desde que foi aberto em junho de 1997, mais da metade deste número só no ano passado.
Na medida em que o hospital continua a expandir sua capacidade e conquista mais pacientes pagantes, que equilibram o orçamento do trabalho social gratuito, pretende atingir a meta de 4 mil operações de catarata por ano.
Uma vez por semana, seguindo o projeto da clínica, cirurgiões passam um dia na sala de cirurgia em Nairobi repondo lentes de pacientes atingidos pela catarata em operações que duram 15 minutos e custam US$ 110 cada ao Lions Club.
Depois de trazer 40 pacientes de Kitui ao hospital, Kahn e outros dois médicos passam o dia realizando as cirurgias, três de cada vez, enquanto os demais esperam apreensivos pela chamada dos seus nomes.
No dia seguinte, os pacientes com curativos brancos sobre um olho caminham alegremente através dos corredores, muitos rindo e cumprimentando os médicos animadamente.
Quando uma enfermeira retira o curativo, Muteki ficara maravilhada com o que vê na divisão feminina do hospital e ri com a expectativa de ser seus netos e de voltar ao trabalho.
Do outro lado do quarto, Mukai Munyoke dá um incontrolável sorriso. "Eu tenho vontade de pular", diz ela.
Completamente cega dos dois olhos por anos, Mukai não podia sequer andar sem ajuda. Ela teve de parar seu negócio de venda de milho e nunca havia visto o mais novo dos seus oito netos. "Eu estava esperando pela morte. Não havia nada para mim", conta. "Agora, a vida voltou".

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