São Paulo, 26 (AE) - O sucesso de alguns Projetos Demonstrativos, PDAs, começa a multiplicar experiências positivas de conservação da Amazônia e remanescentes da Mata Atlântica, rompendo o círculo vicioso de exploração irracional e devastação ambiental, justamente onde a mudança é mais importante: na base. Os PDAs são pequenos financiamentos a organizações não-governamentais - ambientalistas e sociais - ou órgãos governamentais de âmbito local, provenientes dos recursos concedidos ao Brasil pelos países ricos, dentro do Programa Piloto de Proteção às Florestas Tropicais do Brasil, o PPG7.
No total, desde 1996, os recursos comprometidos nos 134 PDAs somam quase 13,5 milhões de dólares para a Amazônia e 4,8 para a Mata Atlântica, ou cerca de 6,5% dos 280 milhões do PPG7. Apesar do percentual pequeno, o potencial de transformação é grande. Sobretudo porque, em geral, os financiamentos privilegiam quem já trabalha, há anos, com pequenos produtores ou com projetos de pesquisas, capazes de aumentar o aproveitamento de recursos naturais, modificar padrões de exploração predatória ou agregar valor à produção agrosilvopastoril, em áreas próximas às florestas, diminuindo a pressão humana sobre a vegetação nativa.
No Pontal do Paranapanema, em São Paulo, por exemplo, os recursos do PDA vão financiar cinturões verdes em torno de assentamentos de sem-terras, sobretudo nas divisas junto a florestas, onde ainda existem grupos de micos-leões-pretos, a espécie brasileira de primata mais ameaçada de extinção. Os recursos - 280 mil dólares para os próximos 3 anos - intensificarão a atuação do premiado Instituto de Pesquisas Ecológicas, Ipê, que já trabalha com os sem-terras desde 97 e responde por um viveiro-escola, no Parque Estadual Morro do Diabo. Passam pelos cursos do Ipê cerca de 400 lideranças de sem-terras
todos os anos. Seis assentamentos do Pontal já tem seus próprios viveiros e incorporaram a agroecologia na rotina diária dos assentados. A experiência começa a interessar lideranças de outras regiões, reunidos, no último fim de semana, num primeiro encontro de "sem-terras, mas com florestas", a ser amplificado em novembro, em Brasília, num fórum nacional dos movimentos de sem terras.
Assentados e colonos de Rondônia, da região de Ouro Preto DOeste, também são os alunos dos cursos organizados pela Associação de Produtores Alternativos, APA. Em torno de 150 famílias, com propriedades de 150 hectares, cultivam 7 a 8 espécies florestais ou frutíferas de maior valor agregado. O projeto começou em 1992, com o enriquecimento de pomares domésticos e apicultura e - inserido no PDA desde 97 - incentiva o plantio de palmeiras de pupunha e açaí para retirada de palmito e polpa, respectivamente. Frutas regionais - cupuaçu, araça-boi e graviola - também estão entre os novos plantios. E os 207 mil dólares do PDA servem para profissionalizar as 80 mulheres, envolvidas no beneficiamento e comercialização dos produtos amazônicos, e para incentivar o uso de tração animal, mais adequado às pequenas propriedades e de menor impacto nos solos.
Em Marabá, no Pará, 41 famílias com propriedades de 100 hectares estão mudando a forma de exploração da madeira. Elas aprenderam com o Grupo de Apoio à Agricultura Familiar de Fronteira a derrubar com menos desperdício; fazer manejo florestal; aproveitar galhadas e madeiras desconhecidas em construções, cercas e na melhoria das estradas e já negociam algumas destas espécies - como o pau santo - com comerciantes de São Paulo.
Em Minas Gerais, os pequenos proprietários, antes responsáveis pela derrubada das matas, foram mais além e conseguiram a criação do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, em torno do qual suas terras estão localizadas. Eles agora participam da gestão do parque e o protegem contra queimadas e degradação, com os trabalhos de conservação de solos e o cultivo consorciado de café - produto tradicional na região - com frutíferas e árvores nativas. O que começou com algumas famílias aglutinadas em torno do Centro de Tecnologias Alternativas, CTA, em 96, aos poucos vai se espalhando pelos 8 municípios em volta do parque, onde vivem 1.900 famílias.

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