Curitiba - Um projeto de lei que será analisado pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara Federal quer proibir e tornar crime inafiançável a pesquisa, utilização e o comércio de células-tronco embrionárias. A proposta, de autoria do deputado federal Hidekazu Takayama (PMDB-PR), prevê pena de dois a seis anos de reclusão e multa para quem desobedecer a lei. O projeto modifica a Lei de Biossegurança, que entrou em vigor em 24 de março e permite apenas a pesquisa e a terapia com células-tronco adultas ou umbilicais.
O parlamentar argumenta que as experiências demonstram que as células-tronco embrionárias humanas são rejeitadas pelo organismo receptor e são causa frequente de tumores. ''Se até os cientistas não conseguiram chegar num consenso, não seremos nós que iremos aprovar a pesquisa de células-tronco embrionárias. Para mim, esta seria uma porta aberta para lidarmos de forma indistinta com seres vivos. O ser humano está brincando de ser Deus. Será que teremos que matar vidas para salvar outras? Isso iria na contramão de tudo o que eticamente lidamos. Queremos impedir tendências perigosas para que não haja a manipulação indiscriminada de embriões'', defendeu ele, em entrevista à Folha.
No Paraná, as pesquisas com células-tronco adultas estão avançadas. O professor Waldemiro Gremski, coordenador do Laboratório de Engenharia e Transplante Celular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), lamenta que um projeto de lei possa bloquear o avanço da ciência no Brasil. ''Nesse momento pode não haver prejuízo imediato para a ciência. Mas se esse projeto for aprovado, o prejuízo para pesquisas será imenso. Seguramente boa parte das soluções para a saúde humana no futuro está nas células-tronco embrionárias'', ponderou o especialista. Para ele, as células-tronco adultas são limitadas, já que parte da capacidade de originar tecidos está comprometida. Já as embrionárias, teriam a capacidade de originar células novas completamente ''virgens''.
Gremski disse que, se o Brasil não pesquisar, futuramente apenas países como Coréia do Sul e Estados Unidos terão cura para doenças graves e que precisem de tratamento. ''Será que esse deputado não pagaria o tratamento de um pai, um filho ou esposa nos países mais avançados? Apenas os ricos terão opção de tratamento no Brasil, se não avançarmos em pesquisas'', disse.
O especialista afirmou que não existe intenção do mundo científico em produzir embriões para matá-los. O que se quer é fazer o que diz a Lei de Biossegurança: pesquisar em embriões congelados há mais de três anos e que seriam descartados. ''É melhor que ele seja destinado para pesquisa do que vá para o lixo'', ponderou.
Os especialistas acreditam que, no futuro, as células-tronco embrionárias poderão curar doenças que hoje são consideradas irreversíveis como lesões na medula, doenças do coração e paralisias cerebrais.

mockup