Projeto que legaliza invasões de terras produtivas cria polêmica
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quinta-feira, 12 de dezembro de 1996
Agência Estado 
BRASÍLIA - Um projeto da senadora Marina Silva (PT-AC), aprovado terça-feira na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, pegou de surpresa o governo e a bancada ruralista ao mesmo tempo, e deverá se constituir em novo foco de polêmica no Congresso.
O projeto modifica o artigo 161 do Código Penal, estabelecendo que não pratica crime quem, sem violência à pessoa ou grave ameaça, invade imóvel rural alheio que não atende aos requisitos do artigo 186 da Constituição Federal. Na prática, a proposta estabelece que deixa de ser crime invadir terra desde que esta não cumpra sua função social.
O artigo 186 da Constituição diz que a função social da terra é cumprida quando a propriedade atende requisitos como aproveitamento racional e adequado, utilização adequada dos recursos naturais e preservação do meio ambiente, observância das disposições que regulam as relações de trabalho e exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
Como é um projeto terminativo, segundo assessores do Senado, ele poderá ir direto para votação na Câmara se não forem apresentadas emendas à Secretaria Geral da Mesa do Senado nos próximos cinco dias.
Ao tomar conhecimento da aprovação do projeto de lei da senadora Marina Silva, o ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, disse que reiterava sua posição de ser contrário a qualquer ato de invasão. Para o ministro, a decisão vai trombar com tudo que o governo vem defendendo até agora. Daqui a pouco vão querer que a gente vá produzir na Bolívia, reagiu o coordenador da bancada ruralista, deputado Abelardo Lupion, ao saber da aprovação do projeto.
Os ruralistas foram surpreendidos com a iniciativa da senadora, porque fizeram um acordo com o governo para a aprovação do rito sumário, de alterar a lei agrária estabelecendo praticamente o contrário do sugerido pela senadora. Pelo acordo, terras invadidas não podem ser desapropriadas enquanto persistir a invasão. Lupion disse que os ruralistas ainda não colocaram isso em votação porque estão fazendo um estudo para avaliar os procedimentos que devem ser tomados para cumprir o que a lei deve estabelecer.
O relator do projeto da senadora Marina Silva, senador Bernardo Cabral, diz em seu relatório que a invasão pacífica de terras improdutivas não pode ser considerada crime, se não quisermos ser atingidos por insurreições desesperadas diante das dificuldades das cidades, repletas de desempregados.
E acrescenta: a descriminalização é uma das ferramentas necessárias à racionalização do Direito Penal, na busca de maior justiça e solidariedade social. Portanto, os conflitos de invasão de terra que não atende à função social não precisam congestionar os tribunais, podendo encontrar solução em outros foros.


