São Paulo, 15 (AE) - A retomada de um projeto que ficou engavetado durante um ano na cúpula da Polícia Federal (PF) pode acabar com um tabu que resiste há três décadas na instituição. Ao receber um grupo de 20 estudantes de direito para um estágio inédito em suas dependências, a PF pode ter dado o primeiro passo para pôr abaixo a tradição de apego à política de portas fechadas.
Os estudantes cursam 4.º e 5.º anos na Universidade Paulista (Unip). Desde o início do estágio - há duas semanas -, eles chegam às 8 horas ao prédio da Superintendência Regional em São Paulo. Instalam-se em gabinetes de delegados, salas de escrivães e laboratórios de criminalística. Acompanham depoimentos, examinam autos de inquéritos, relatórios e laudos e podem até dar sugestões.
Há restrições, naturalmente. É vedada a participação dos alunos em operações policiais externas e atividades de risco e o acesso a inquéritos sob segredo de Justiça ou que contenham dados protegidos pelo sigilo legal - bancário, fiscal e telefônico.
O projeto permaneceu arquivado na direção-geral da PF, em Brasília, na gestão do delegado Vicente Chelotti. Ele dirigiu o órgão durante o primeiro mandato e no início da segunda gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Caiu em desgraça depois de ter seu nome envolvido em um caso de escuta telefônica.
Durante sua administração, Chelotti não deu apoio ao estágio de estudantes de direito. O delegado Agílio Monteiro, que assumiu o posto, ordenou a retomada da proposta, de autoria do delegado Armando Rodrigues Coelho Neto, defensor de uma política de "portas abertas" para a PF.
Regras - As condições do estágio - estabelecidas em dez cláusulas - foram acertadas por meio de um convênio entre o Instituto de Ciências Jurídicas da Unip e a Polícia Federal. O superintendente regional, delegado Yokio Oshiro, e o diretor-adjunto do instituto, professor Hermínio Alberto Marques Porto Júnior, definiram as regras e não coube à PF nenhuma despesa.
O convênio tem duração de um ano, prorrogável por igual período, até o máximo de 60 meses. Pode ser rescindido, de comum acordo ou unilateralmente. Cabe ao instituto selecionar, em concurso interno, os alunos que preencherão as vagas indicadas. O estágio terá a duração mínima de seis meses, podendo chegar a dois anos. A remuneração dos estagiários - que precisarão cumprir carga mínima de 20 horas semanais - ficará por conta do instituto.

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