Projeto mudou vida de jovens
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 1999
por Biaggio Talento 
Salvador, 28 (AE) - A Escola Oficina modificou completamente a vida dos jovens que passaram a frequentar seus cursos. A ex-menina de rua Conceição tomou conhecimento do projeto através de um amigo que frequentava a mesma instituição de acolhimento de menores da periferia de Salvador onde costumava andar. Bem articulada e falante, ela conseguiu passar na primeira seleção e inscreveu-se no curso de estuque, pois já havia trabalhado com moldes de gesso na fabricação de imagens de santos. Não conhecia essa aplicação do gesso e fiquei maravilhada com as possibilidades que o material oferece, disse.
Ela já consegue moldar capitéis (colunas) gregas e outras peças que serão usadas na decoração do suntuoso prédio da Faculdade de Medicina, em substituição às originais danificadas. Para quem nem sabia onde ficava o prédio da faculdade e pouco conhecia o centro histórico foi um avanço. Aprendi um profissão fascinante e espero conseguir um bom emprego, disse, informando que passou a morar com a tia e recuperou sua cidadania.
A história de Sandra Xavier de Oliveira, 18 anos não é muito diferente. Oriunda de uma família humilde de 11 filhos, dos quais apenas um trabalhava para ajudar a mãe e o pai, um torneiro mecânico também desempregado, Sandra procurou a Escola Oficina com uma grande esperança de mudar de vida. Lembra que chegou às 7 horas, no dia da inscrição, ocupando o 600º lugar da fila.
Resisti até o horário que me atenderam, às 14 horas, disse. Quando viu seu nome incluido entre os selecionados chorou de alegria. O dia de Sandra começa cedo. Ela acorda às 5h30, pega o ônibus no bairro do Uruguai, na periferia onde mora e chega na oficina às 7h30, trabalhando até o meio-dia. O turno da tarde vai das 13h30 às 17 horas. Da oficina ela vai para a escola regular e volta para casa por volta das 23 horas. Diversão, só no final de semana. Sandra gostou tanto do curso que já está lamentando ter de sair em maio. Meiry Silva, de 19 anos, é outra futura estucadora que pensa em ganhar dinheiro com a profissão. Ela queria entrar no curso de pedreiro. Sempre sonhei em levantar uma casa, mas quando me explicaram o que era o estuque resolvi fazer e não me arrependo, disse.
Antonio Carlos Santos, de 17 anos, estudava pela manhã e passava o resto do dia lesando, sem fazer nada. O ócio fez até ele perder o ano na escola, em 97. Há muito tempo eu procurava um emprego para poder ganhar dinheiro para comprar os livros e quando um amigo me avisou sobre Escola Oficina, corri para me inscrever. Ele mora com a mãe e seis irmãos que não trabalham. Quando soube da dura jornada de dois turnos, chegou a considerar a possibilidade de não fazer o curso de marcenaria.
Pensei que prejudicaria a escola. Resolveu arriscar e, curiosamente, o trabalho fez com que ele melhorasse as notas na escola. Hoje, já faz planos para trabalhar, no futuro, com o tio que tem uma marcenaria.
A OBRA - O projeto de restauração Faculdade de Medicina prevê a preservação de trechos e características das fases mais marcantes do imóvel, ao longo dos últimos 300 anos. Nascido como Colégio dos Jesuítas no final do século 16, (do qual não restou qualquer vestígio) o local foi reformado e ampliado entre o final do século 17 e inicio do 18, compondo com a Catedral Basílica, um belo conjunto. Com a expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759, o prédio passou a abrigar o hospital militar e o primeiro curso oficial de medicina do Brasil, a partir de 1815. Um incêndio destruiu as instalações da faculdade em 1905, logo após uma ampliação, motivada pelo crescente número de alunos. O arquiteto francês Victor Dubugras foi contratado para fazer a nova planta (o formato atual do imóvel) cuja obra concluída pelo engenheiro Teodoro Sampaio, em 1909. Para harmonizar o prédio, com as construções coloniais da praça Terreiro de Jesus, Dubugras indroduziu elementos neo-clássicos na fachada e no interior da faculdade.
A beleza e a pompa parece ter inspirado os frequentadores do local que virou um modelo em todo o Brasil, nesse século. Foi na faculdade que o médico Manuel Pirajá da Silva identificou o verme Schistossoma mansoni, responsável pela esquitossomose. O primeiro curso de medicina legal do Brasil também foi implantado ali pelo médico Raimundo Nina Rodrigues. Na mesma escola, o cientista alemão radicado na Bahia Oto Wucher identificou o agente transmissor da doença conhecida como elefentíase, o Wuchereria bancroft. A decadência física da instituição começou nos anos 70, quando a faculdade foi transferida para o campus do Canela, da UFBA. Uma grande parte do antigo prédio praticamente virou ruínas. Na trecho mais conservado, funcionam os museus de Arqueologia e Afro-brasileiro
além do Memorial de Medicina.
O arquiteto Luís Dourado revelou que o estado das estruturas do prédio é bem pior do que se imaginava. Os ferros das lajes escontravam-se totalmente oxidados, com risco de desabamento, disse, informando que tudo está sendo substituído e consolidado. Em outros trechos, como onde encontramos um piso de ladrilho europeu belíssimo, precisamos mudar a forma de restaurarar: como é arriscado retirar essas peças para não danificá-las, estamos restaurando a estrutura que o ladrilo recobre, por baixo, explicou. O resultado de tanto detalhismo, necessário num momumento tão importante, fez a obra atrasar. Ela seria inaugurada no ano passado, mas agora o novo prazo é o ano 2000. Quando estiver restaurado, o prédio abrigará os cursos de pós-graduação da Faculdade de Medicina da UFBA.


