Curitiba - O Decreto 90.883 de 1985 criou o Parque Nacional de Superagui, no Litoral do Paraná, transformando em Área de Preservação Ambiental (APA), uma extensão de 3.134 quilômetros da costa do Estado até a divisa com o estado de São Paulo. A proteção ao meio ambiente, no entanto, acabou trazendo consequências drásticas para a população local que, com a legislação, teve proibidas suas duas principais atividades econômicas: o plantio de mandioca usada na fabricação de farinha e a pesca. Com isso, a qualidade de vida da maioria dos 8 mil moradores da região da APA despencou. Grande parte não conseguiu, até hoje, voltar ao mesmo padrão de antigamente, quando viviam com simplicidade, mas tinham o necessário para viver com dignidade.
Essa situação não passou despercebida por um grupo de pesquisadores que viajava constantemente para as ilhas de Superagui, das Peças, Rasa, Abacateiro, e áreas próximas como Rio dos Patos e Saco do Morro, pesquisando a vida dos nativos e, mais especificamente, o Fandango dança típica do litoral paranaense. Foi assim que acabou nascendo o projeto ''Cidadão da Floresta''. Tocado pela ONG Centro de Pesquisas e Ação em Desenvolvimento Sustentável (Cepas), a finalidade do projeto é fortalecer a cidadania e melhorar a qualidade vida das populações que vivem próximas às áreas de preservação permanente do Estado.
Para isso, a ONG está desenvolvendo linhas de ação em várias áreas, como cultura, arte, educação, saúde e meio ambiente. Segundo a historiadora Janine de Souza Malanski, uma das coordenadoras dos projetos do Cepas, a comunidade empobreceu com a transformação do parque em APA. ''De repente eles se viram enquadrados em uma legislação, onde não podiam mais pescar, nem plantar mandioca, o que era feito no sistema de queimadas. E, o que é pior, ninguém sabia o que podia ou não fazer no local'', conta.
Tanto que muitos nativos foram multados por descumprir a lei. A moradora do Saco do Morro Maria Skinini, mais conhecida como dona Mariquinha, por exemplo, levou duas multas no total de R$ 3 mil. ''Eles perderam um pouco de sua identidade, porque sobreviviam antes com qualidade de vida e, agora, ainda não têm opções para gerar novas fontes de renda'', explica Janine. Há exceções. Na Ilha dos Barbados, por exemplo, 23 famílias vivem graças a um projeto de criação de ostras. Com a ajuda de uma outra ONG, uma comunidade está aprendendo a fazer bonecos.
Mas muitos nativos, sem atividade econômica, tiveram que abandonar suas casas e hoje moram precariamente em Guaraqueçaba. Eles não sabiam que a lei permite, por exemplo, que retirem quantidade pequena de madeira para fazer seus artesanatos. Também podem fazer plantio para subsistência, desde que não destruam a mata.
Nesse sentido, o Cepas vem trabalhando na construção da cidadania dessa população. Um dos programas prevê o incentivo à cultura local, como a música e dança do litoral. A pretensão é construir um Centro de Fandango, que serviria também de local para teatro, capoeira e outras atividades.

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